sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Silas Malafaia, Israel e o direito de matar

Por Hermes C. Fernandes
Acabei de assistir ao pronunciamento do pastor Silas Malafaia acerca do conflito "Israel e Palestinos" e coincidentemente tratei do mesmo assunto no culto de ontem em nossa igreja. Apesar do meu amigo Danilo Fernandes, editor do Genizah, concordar 100% com o líder da AVEC, gostaria de apresentar as razões que me fazem discordar de seu posicionamento.
Silas faz coro com boa parte dos líderes evangélicos brasileiros, que por sua vez, estão afinados com o diapazão ideológico americano.
A primeira coisa que me chamou a atenção na defesa que Silas faz dos ataques de Israel à faixa de Gaza foi dizer que, numa guerra, nenhuma reação é proporcional à ação. Portanto, Israel teria razão em lançar mísseis em escolas palestinas matando crianças inocentes para vingar a morte de três adolescentes judeus mortos por militantes do Hamas. Ora, se Israel se mantivesse fiel aos princípios esboçados na Lei do Senhor, saberia que um dos seus mandamentos diz respeito à proporcionalidade de nossas reações (olho por olho, dente por dente). E mais: um discípulo de Jesus jamais defenderia qualquer reação, uma vez que seu Mestre ensinou a amar a seus inimigos e oferecer-lhes a outra face. Partindo do argumento usado por Silas, o ataque dos EUA a Nagazaki e Hiroshima em reação ao ataque japonês a Pearl Harbor foi totalmente justificável. Enquanto 2403 pessoas morreram na base americana de Pearl Harbor, 220 mil pessoas morreram nas duas cidades japonesas (quase cem vezes mais!). Quantas crianças palestinas terão que morrer para vingar a morte dos três adolescentes judeus?
Porém, o que mais me incomodou em seu discurso pró-Israel foi a interpretação teológica dada ao fato e à posição supostamente privilegiada de Israel.
De fato, Deus fez uma promessa a Abraão de que toda aquela terra seria dada à sua descendência (Gn.13:14-15). Esta mesma promessa foi confirmada a Isaque e a Jacó (Gn.26:2-24; 28:12-14). Todavia, Deus estabeleceu condições para que seus descendentes tivessem o direito de posse da terra. Se não as cumprissem, a terra os vomitaria e eles seriam espalhados entre as nações (Lv.20:22; 26:14-15, 27-28, 32-33). Portanto, a Diáspora Judaica nada mais é do que o cumprimento das sanções impostas por Deus a Israel, se seu povo não guardasse os seus mandamentos. Ainda mais grave do que rejeitar a Lei do seu Deus, os judeus também rejeitaram o Messias prometido. Portanto, a aliança entre Deus e eles foi quebrada.
Entretanto, há promessas bíblicas de que Israel retornaria à sua terra. E com base nessas promessas, surgiu o movimento sionista. Sionismo é um movimento político e filosófico que defende a existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel. O sionismo é também chamado de nacionalismo judaico e historicamente propõe a erradicação da Diáspora Judaica, com o retorno da totalidade dos judeus ao atual Estado de Israel. O termo "sionismo" é derivado da palavra “Sião”, nome de uma das colinas que cercam a chamada Terra Santa. Durante o reinado de Davi, Sião se tornou sinônimo de Jerusalém. Em inúmeras passagens bíblicas, os israelitas são chamados de "filhos (ou filhas) de Sião".
O que este movimento parece ignorar é que para que Israel retornasse à sua terra, algumas condições precisariam ser preenchidas. Dentre elas, a mais importante é a conversão dos judeus.
“Porque, em vos convertendo ao Senhor, vossos irmãos e vossos filhos acharão misericórdia perante os que os levaram cativos, e tornarão a esta terra; porque o Senhor vosso Deus é misericordioso e compassivo, e não desviará de vós o seu rosto, se vos converterdes a ele.” 2 Crônicas 30:9
Portanto, o atual Estado de Israel, fruto de um arranjamento político da ONU, nada tem a ver com o cumprimento da promessa de Deus de que seu povo retornaria à sua terra. E a prova disso é que não houve conversão. E converter-se a Deus é acolher a única oferta de salvação possível: JESUS CRISTO. Por isso os apóstolos eram tão enfáticos ao testificar que "tanto a judeus como a gregos devem converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus" (At.20:21). À parte de Cristo, todo judeu está tão perdido quanto qualquer gentio.
Paulo diz que eles eram os ramos naturais da oliveira (Abraão), mas devido à sua incredulidade e desobediência, foram quebrados e em seu lugar, nós, os que cremos dentre os gentios, fomos enxertados. Até que se convertam ao evangelho, eles são judeus apenas na carne, mas não na fé que teve seu patriarca. A igreja é, por assim dizer, a continuação do verdadeiro Israel. A árvore é a mesma, os ramos que foram substituídos.
Ademais, a promessa de que os judeus retornariam à sua terra foi cumprida quando deixaram o cativeiro babilônico e voltaram para Jerusalém nos dias de Esdras e Neemias. Porém, por terem se mantido rebeldes, foram mais uma vez espalhados pelo mundo quando Jerusalém foi destruída pelo exército romano no ano 70 d.C. sob o comando de Tito.
A aliança feita com Abraão não caducou, mas foi devidamente cumprida em Jesus, seu Descendente (Gl.3:16). E os que são de Cristo são os verdadeiros descendentes de Abraão (Gl.3:29). De acordo com o próprio Jesus, o reino foi tirado dos judeus e entregue a outro povo, a saber, a Sua igreja, reunião de judeus e gentios que creem em Seu nome (Mt.21:43).
E mesmo que Israel continuasse a ser o povo da aliança, conforme cre Silas, isso não lhe daria o direito de agir da maneira como tem agido, tirando a vida de milhares de civis inocentes. Deus não lhes deu o direito de matar. Nem a eles, nem ao Hamas, nem aos palestinos, nem aos EUA, nem a quem quer que seja.
Ainda segundo o pastor Silas, quem se levanta contra a política Israelense corre o risco de ser amaldiçoado por Deus. Ora, ora... A bênção de Abraão a que ele se refere (abençoarei aos que te abençoarem e amaldiçoarei aos que te amaldiçoarem) está sobre seus verdadeiros descendentes, aqueles que seguem suas pegadas de fé, recebendo a oferta de salvação feita em Cristo Jesus. E por favor, não confundam isso com antissemitismo. Faço coro com Paulo que diz que seu desejo era que seus compatriotas fossem salvos. Amo os judeus. Como também amo os palestinos. Oro por Jerusalém. Como também oro por Gaza. E não é porque desejo prosperar, mas pelo simples fato de amar ao que Ele igualmente ama. Porém, este amor não me faz cego ante as arbitrariedades cometidas pelo Estado Israelense.
Se Israel tem o direito de existir como Estado, os palestinos também tem o mesmo direito. Só haverá paz consistente e verdadeira quando houver justiça. E só haverá justiça quando houver amor. O salmista diz poética e profeticamente que a misericórdia e a verdade devem se encontrar e a justiça e a paz devem se beijar (Sl.85:10). Sem que isso aconteça, o máximo que teremos são tréguas momentaneas, seguidas de conflitos ainda mais severos.
A questão é: quem será o cupido que promoverá este encontro? Em que cenário se dará o tal beijo? Será no jardim da Casa Branca? Ou quem sabe no pátio do Templo de Salomão... Não! A paz deve ser selada na ambiência do coração. E o cupido que deve promover o encontro não é algum presidente americano, mas ninguém menos que a igreja de Cristo.
A igreja deve agir como agência reconciliadora entre os povos, e para tal, não pode posicionar-se ao lado de uns contra outros, como fez o meu colega Silas. Deus nos confiou o ministério da reconciliação (2 Co.5:18-19; Ef.2:14-16). Em vez de alimentar discórdias, devemos nos posicionar pela justiça, pela verdade e pela paz.
Não ouso questionar a sinceridade de Silas, pois reconheço que seu discurso é eco do que tem sido ensinado à igreja desde o surgimento da teologia dispensacionalista. Porém, recuso-me a ficar calado, consentindo com os equívocos desta teologia.
Que assim como Jesus, que caminhou por Jerusalém durante os dias em que Israel estava sob a tirania romana, preguemos o dever de se oferecer a outra face em vez de o direito de revidar ao ataque dos inimigos.
Fonte: Blog Hermes C.Fernandes
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
EU, O MENINO, O HOMEM E NÓS!

Quando eu era menino sentia como menino, e, por isto, como menino, eu era o boy até poder virar Tarzan.
Quando eu era menino, pensava como menino, por isto olhar pelos buraquinhos de madeira da casa dos vizinhos pobres, para ver as moças das casas se banhando nuas, era o que o menino poderia fazer até que poder dar banhos nelas.
Quando eu era menino cria que apesar do Pelé [...] o Gérson era o melhor do mundo, até ver que o melhor do mundo é o de cada geração.
Quando eu era menino jovem as louras eram pra exibir, a morenas para degustar e as brancas normais e belas para passear, até que descobri que era tudo a mesma coisa...
Quando eu era menino Deus me amava e eu não sabia o porque. Até que entendi quando homem que quando menino eu tinha razão, pois não há sequer um porque e nem por quê a ser destinado a Deus. Salve menino!
Quando era menino não sabia que a salvação do homem estava no Menino e na criança.
Quando eu era menino eu queria ser logo homem. Quando homem lembrei do menino com gratidão. Então, bem devagar, esqueci o menino e me perdi nas florestas dos adultos sem alma e sem a religião do é, mas apenas a do que pode ser...
Há coisas de menino a serem “desistidas” e há coisas de menino nunca a serem desistidas.
Quando homem desisti de tudo de menino...
“Ah, por favor”, gritou minha alma, “tudo não!...”
E o olhar? E o sentir leve? E a fé simples? E a confiança? E a humildade de pedir ajuda? E rapidez no passar do choro ao riso? E a brincadeira séria como guerra e a guerra séria como uma brincadeira? E a desamargura? E o perdão simples como jogar bola?
Hoje, menino e homem se reconciliaram. Andam juntos. Conversam. Trocam. Se iluminam. Gargalham.
O menino se vê no homem!
O homem se admira que já estivesse pronto no menino!
Entre o homem e o menino... — Deus, pai, mãe, amigos, mulher, filhos, inimigos, tempo e tempo, dor e dor, fé e fé —; sim, entre o homem e o menino tudo o que coube entre o menino e o homem para o bem.
Eu menino me respeito. Eu homem tenho o maior carinho por aquele menino que se fez eu em mim em Cristo.
Nele,
Caio
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
O Templo de Mamom (Ops, Salomão) e o legado dos poetas

Uma rápida retrospectiva de um Julho com cara de Agosto
Por Hermes C. Fernandes
Hoje começa o mês de Agosto, geralmente identificado como um mês de desgostos. A impressão que se tem é que tudo de ruim que poderia ocorrer neste novo mês, ocorreu antecipadamente no mês cujo nome é dedicado a Júlio César, fundador do império romano.
Poetas no deixaram. Aviões caíram. Israel protagonizou cenas de horror em Gaza, matando centenas de civis inocentes, inclusive crianças. E como se não bastasse tanta desgraça, inaugurou-se em São Paulo o Templo de Mamom. Por favor, não o chamem pelo nome do sábio rei autor de Eclesiastes e de Provérbios. Seria um ultraje à sua sabedoria.
O mundo parece ter enlouquecido.
Como se não bastasse costurar o véu rompido no momento em que Cristo expirou, Macedo reconstrói o templo, lugar de sacrifício, anulando, assim, a nova aliança em que o único templo de que Deus dispõe é o Seu povo. Lamentável. Um ultraje ao sangue do Justo.
Quem diria que aquele rapaz que ficava em pé atrás da bateria que eu tocava quando tinha apenas 6 anos, se tornaria neste mega-empresário da fé? Quem poderia supor que ele aproveitaria o que aprendera de meu pai para construir um templo/monumento réplica do construído pelo sucessor de Davi? Será que isso deveria entrar na conta de meu pai? Seria ele o responsável por esta aberração? Responsabilizá-lo seria como responsabilizar Daniel pela estátua construída por Nabucodonosor. Revelar e interpretar o sonho não o fez cúmplice daquela insanidade. Assim como Jesus não é responsável pela hidra em que se tornou o cristianismo, nem Maria e os santos culpados pelo culto prestado a eles.
Do mesmo lugar de onde Macedo saiu para fundar a IURD, Deus tem levantado um povo com uma visão diametralmente inversa à dele, que se nega a enxergar o mundo como um palco para suas performances circenses, preferindo enxergá-lo como oportunidade para demonstrar o amor de Deus em gestos de misericórdia e solidariedade.
Semelhantemente, não se pode culpar Abraão e demais patriarcas por aquilo em que Israel se tornou, uma máquina de guerra.
Não temos controle sobre o que farão com o que houvermos ensinado depois que partirmos. Nossas palavras poderão ser pinçadas de seus contextos e torcidas a ponto de dizer exatamente o que pretendíamos combater.
Macedo não durará para sempre. Mas sua obra faraônica, caso não seja demolida, poderá se manter de pé por séculos, abrigando seus restos mortais e servindo de monumento à sua extraordinária capacidade de gestão eclesiástica. Pena que a use para um desserviço à causa do reino de Deus.
João Ubaldo, Ariano Suassuna e Rubem Alves, os poetas que perdemos recentemente, ao que tudo indica, nada deixaram construído, porém, legaram-nos palavras que ainda ecoarão por milênios. O templo erguido por Salomão sucumbiu por mais de uma vez. Porém, as palavras que nos deixou registradas nos dois livros atribuídos à sua autoria, acompanharão a humanidade até o fim dos tempos.
Apesar de não ter assentado um único tijolo, Jesus foi a pedra angular sobre a qual o reino de Deus é erigido entre os homens.
sábado, 2 de agosto de 2014
terça-feira, 29 de julho de 2014
A Química do Amor e a Fotossíntese da Árvore da Vida

Por Hermes C. Fernandes
Somos ramos da Árvore da Vida que é Cristo, plantados à margem do Rio da Vida, o Espírito Santo, e nosso objetivo é duplo: produzir frutos para Deus, e remédio para as nações através de nossas folhas (Ez.47:12). Sempre que me deparava com essa passagem em Ezequiel, me perguntava em que sentido nossas folhas curariam as nações.
Para que servem as folhas de uma árvore, afinal? Para produzir o oxigênio. Isso se dá através de um processo conhecido como fotossíntese.
Para que esse processo ocorra, é necessário a atuação de três agentes: o sol, com a sua luz (foton); o gás carbônico produzido por todos os que respiram, e que é considerado nocivo para nós mesmos; e as folhas, com seu poder de processar esse gás carbônico, devolvendo-o à atmosfera em forma de oxigênio.
Interessante essa analogia... Recebemos de Deus o bem, mas por causa de nossa natureza caída, o bem passa por nós, e transforma em algo nocivo aos nossos semelhantes e a nós mesmos. Recebemos da natureza o oxigênio, que depois de passar por nós, se transforma em gás carbônico. Nossa natureza caída transforma remédio em veneno, vida em morte, amor em ódio, justiça em vingança.
Não precisamos nos esforçar para isso. Está em nossa natureza. Por isso, Paulo dizia: "Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum. Com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem" (Rm.7:18).
Deus, em Sua infinita sabedoria, plantou no meio do Seu Jardim (humanidade) a Árvore da Vida. Aos nos convertermos a Ele, tornamo-nos ramos dessa árvore. E nossa suprema missão é reverter esse quadro danoso, esse círculo vicioso de ódio, rancor e vingança.
Mas não podemos fazê-lo sozinho. Não é na força de nosso braço. Como diz a Escritura, não é por força, nem por violência, pelo Espírito. Lá fora está o Mundo sem Deus, a humanidade caída, produzindo males para si mesma. Nosso papel, como Igreja de Cristo, é romper com o ciclo da maldade, e transformar o mal que recebemos em bem.
Como se dará essa "química"? Como processá-la? Que misteriosa alquimia é esta, capaz de transformar "ferro velho" em ouro?
Sozinhos? Impossível! E é aí que entra o único que pode produzir a síntese perfeita: Deus.
Tal qual o Sol na fotossíntese, é o Pai Celestial que origina todo o processo. Como vimos, a Árvore da Vida é Cristo, do qual somos ramos. As folhas representam a manifestação da natureza divina em nós, capaz de transformar o mal recebido em bem.
A Igreja de Cristo é como um poderoso reator, capaz de processar todo mal que recebe, e devolvê-lo ao mundo em forma de perdão e amor.
"Abençoai aos que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis (...) A ninguém torneis mal por mal (...) Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem." Romanos 12:14,17a,21
"Não pagueis mal por mal, nem injúria por injúria. Pelo contrário, bendizei, porque para isso fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança (...) Tende uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam do vosso bom procedimento em Cristo. Melhor é que padeçais fazendo o bem (se a vontade de Deus assim o quer), do que fazendo o mal." 1 Pedro 3:9,16-17
E é assim que o bom perfume de Cristo é extraído de nós, e exalado no mundo. Em vez de questionarmos a razão de sofrermos, devemos receber a injustiça, e devolvê-la ao mundo em forma de amor. E será assim que o mundo passará por aquilo que chamo de amorização. A Terra se encherá do conhecimento de Deus, e a fragrância de Seu amor reunirá todos os povos ao redor do Trono da Graça.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
O Deus Jardineiro

Por Rubem Alves
Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras e ignorância da Palavra". A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria."(Clique aqui para você ler um texto sobre jardins)
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia. | ||
O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade. Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu. Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constroem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom! Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos... Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:
Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.
Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:
"No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta."
Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso." (O retorno eterno, p 65). Rubens Alves (Título original: Jardim)
Fonte: Blog Hermes C. Fernandes
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