sábado, 29 de junho de 2013

O que penso da profecia que amarra os principados da corrupção e da miséria no Brasil


Por Hermes C. Fernandes

Agora vai! Uma famosa pregadora americana profetizou que os principados da corrupção e da miséria seriam amarrados no Brasil. Até que enfim! Já não aguentava mais viver num país dominado por esses principados do inferno.

Se você se animou com esta profecia e viu, nas recentes manifestações das ruas, um prenúncio do seu cumprimento, sinto em lhe informar que você aderiu a um modismo que desembarcou em terras tupiniquins em meados dos anos 90, embalado pelo enorme sucesso do livro "Este mundo tenebroso" de Frank Peretti. Apesar de ser um livro de ficção, sua abordagem acerca do mundo espiritual foi adotada por muitos como doutrina. 

Foi um tal de amarrar "principado disso", "potestade daquilo". Eu mesmo participei de um congresso de líderes com Peter Wagner e Cindy Jacobs nas dependências da sede da Renascer em SP. Saí de lá amarrando tudo o que via pela frente. Vivia, então, no auge da minha ignorância.

Mais de vinte anos se passaram e, pelo jeito, tais "principados" continuam soltos como nunca. Ou as correntes que usamos são frágeis demais, ou tudo não passa de imaginação sem qualquer respaldo bíblico.

O que os expoentes deste movimento atribuem a entidades demoníacas, as Escrituras chamam de "obras da carne".

Não, caro leitor. Não existe espírito de embriaguez ou de prostituição. Ambas são obras da carne. Não existe nem mesmo espírito de feitiçaria, pois esta também é obra da carne. Se quiser tirar a prova dos nove, leia a lista exposta por Paulo em sua carta aos Gálatas:
"Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas..." 

Gálatas 5:19-21
Atribuir tais vicissitudes à atuação demoníaca é uma maneira de nos esquivar da responsabilidade. Se quisermos ver o Brasil livre da corrupção e da miséria, temos que conclamar os homens ao arrependimento. Ora, arrependimento implica admissão de culpa. Por que deveríamos admitir a culpa por algo praticado por demônios?

Miséria é fruto da injustiça, da má distribuição das riquezas do país. Não se trata da atuação de demônio algum. Corrupção é resultado de falta de caráter e de impunidade. Isso não se combate com jejuns, palavras mágicas, gritos de ordem, atos proféticos, mas com denúncia e arrependimento.

Até quando o Brasil continuará importando estas teologias enlatadas dos EUA? A impressão que tenho é que, enquanto um gigante acordou (o Brasil), outro continua dormindo (a igreja).

O que precisamos não é de profecias ou profetadas, mas de um retorno às Escrituras, seguido de um engajamento da igreja nas questões sociais. Uma igreja genuinamente profética é a que rompe com a redoma da religiosidade ensimesmada e sai ao encontro do mundo, denunciando a injustiça e anunciando a boa nova do reino de Deus.

E quanto aos principados e potestades de que as Escrituras falam? Deixo a resposta para a maior autoridade no assunto:
"E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo na cruz." Colossenses 2:15
Não vou ficar perdendo tempo amarrando o que já foi despojado! Jesus disse que para que o valente fosse despojado de seus bens, outro mais valente do que ele teria que amarrá-lo. A menos que Jesus tenha falhado em Sua missão, teremos que dispensar qualquer outro candidato a "mais valente que o valente" (Mt 12:29, Lc 11:21-22).Alguém se habilita a fazer algum acréscimo à cruz?

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sexta-feira, 28 de junho de 2013

COMO É SER DISCÍPULO DE JESUS?


“Como é ser discípulo de Jesus?” — é a pergunta de muitos.

Ora, é simples e terrível; e é tão terrível justamente porque é tão simples; e gera tanto esforço justamente por isso, pois nada há tão difícil quanto a simplicidade, nem que demande mais esforço que descansar no descanso.

A tendência natural da alma humana é para oferecer os mesmos sacrifícios de produção própria de Caim. Em Caim nasceu a religião. E é no espírito da oferenda autojustificada de Caim que ela é praticada.

É difícil não oferecer nada a Deus. É muito difícil apenas confiar que o sangue de outro cobriu você. É loucura para os gregos e intelectuais; é escândalo para os judeus e todos os religiosos.

Para ser discípulo de Jesus a pessoa tem que renunciar o “si-mesmo”. Ora, isto significa desistir de si mesmo como “produção” de algo que comova Deus.

Negar ao “si-mesmo” é abandonar a presunção da persona.

Negar a si mesmo é o que se tem que fazer para que o “eu” seja alcançado, e, em seu estado mais verdadeiro, possa ser atingido pelo amor de Deus.

Negar a si mesmo é deixar toda justiça própria e descansar na justiça de Deus, que, antes de tudo, é justiça justificadora.

Negar a si mesmo é abandonar a presunção de agradar a Deus pela imagem e pelas produções próprias.

Quem quer negar a si mesmo?

Se alguém quiser, então tome a sua cruz. Cruz? Que cruz? Ora, a única. A minha cruz será sempre me gloriar na Cruz.

Alguém diz: Mas não sobrou nenhum sacrifício para mim?

O sacrifício é aceitar que o Sacrifício foi feito e consumado.

Alguém pensa que isto é fácil?

Tente!

Sim, tente apenas e tão-somente confiar que está pago e feito.

Tente crer que Jesus é suficiente, não como chefe de religião, mas como o Cordeiro que tira o pecado do mundo todo.

Tente rejeitar todo pensamento de autojustificação toda vez que você se vir tentado a se explicar para Deus e para os homens.

Tente apenas confiar na única Cruz, e, assim, levar a sua cruz, que é andar pela fé, nunca tendo justiça própria senão a que vem de Deus.

Tente, e você verá como todos os seus sentidos se revoltarão, e como todos os seus instintos se eriçarão, e você se sentirá inseguro, como se a Lei do Reino fosse a da Sobrevivência dos mais Aptos.

Sim, porque nos sentimos seguros no sacrifício de Caim, embora ele nada realize diante de Deus. E nos sentimos muito inseguros na hora de praticar na vida o sacrifício de Abel.

Jesus disse “Está Consumado”. E a nossa alma, em si mesma, pergunta: “O que mais eu devo fazer?”

Jesus terá que repetir Seu sacrifício todos os dias outra vez? Ou terei eu de oferecer alguma coisa a mais?

Ora, se a pessoa consegue desistir do “si-mesmo”, e tomar a sua cruz, então, Jesus diz que esse tal vai poder segui-Lo.

“Segue-me” — é o convite.

E aí? O que acontece? Fica tudo resolvido?

É claro! Está tudo resolvido! Eu, agora, é que preciso aprender a usufruir o que já está consumado. Assim, tendo já tudo consumado em meu favor, caminho para experimentar o que já está feito e pronto.

E como é esse caminho? Como se faz para seguir Jesus?

Ora, ande após Ele como Pedro... e os outros.

O discípulo é um ser em disciplina. Disciplina é o que o discípulo vai aprender.

Que disciplina? A dos centuriões?

É claro que não. A disciplina que o discípulo vai aprender é amor.

Assim, no caminho, o discípulo cai, levanta, chora, questiona, se oferece para o que não deve, ambiciona ser maior, menor, mais amado, mais crido, mais usado, mais devotado, mais, mais... e, então, vai aprender enquanto cai, enquanto erra, enquanto sugere equivocadamente, enquanto acerta, enquanto nega, enquanto corta orelhas, enquanto quer fazer fogo cair do céu e enquanto pensa que sabe, sem nada saber.

O caminho do discípulo é igual ao caminho dos discípulos no Evangelho, e acontece do mesmo modo. E só será discipulado se for igualmente acidentado, exposto, aberto, equivocado, humilde, capaz de aceitar a repreensão do amor e apto a aprender sempre sem jamais acreditar que se terminou qualquer coisa antes que se ouça: “Vem, servo bom e fiel; entra no gozo do teu Senhor”.

O caminho do discípulo não está escrito em manuais e nem em cartilhas de igreja.

O caminho do discípulo é todo o chão da existência.

O discípulo é forçado a só aprender se viver. E ele não precisa ter medo da vida, pois é na vida que ele vai seguir a Vida.

No caminho do discípulo o mar se encapela, as ondas se levantam e os ventos sopram. Por isso, o discípulo muitas vezes tem medo, grita, vê coisas, interpreta-as errado — “É um fantasma!”

Seguindo Jesus o discípulo está sempre seguro, mesmo quando pede o que não deve, e mesmo quando muitas vezes deseja o que lhe faz mal.

No caminho ele vê demônios saírem e não saírem; julga e é julgado e aprende que não pode julgar; afoga-se, é erguido e caminha sobra as águas; vê maravilhas; encara horrores... Mas adiante dele está Jesus!

Para ser um discípulo de Jesus a pessoa tem que ficar sabendo que o Evangelho não são quatro livros acerca do que aconteceu entre Jesus e alguns homens e mulheres muito tempo atrás.

Para ser um discípulo de Jesus a pessoa tem que ficar sabendo que o Evangelho está acontecendo hoje, do mesmo modo, na vida dela. E precisa saber que as coisas escritas no Evangelho são apenas para a gente ficar sabendo como é que acontece na nossa própria vida.

O Evangelho só é Evangelho se for vivido hoje. Não com a pretensão de dizer que seremos como Jesus. Mas pelo menos com a declaração de que seremos como os discípulos, e que adiante de nós, de todos nós, está o Senhor.


Caio

[Filósofos & Educação] Gramsci