sábado, 11 de outubro de 2014
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Eu era feliz e não sabia!

Por Hermes C. Fernandes
“Eu era feliz e não sabia!” Li esta frase, se não me engano, pichada no muro de uma estação de trem durante o governo José Sarney. Quem a escreveu não pretendia homenagear Ataulfo Alves, o brilhante compositor que a escreveu na linha final da canção "Meus tempos de criança", em que celebra as memórias de sua infância. Em vez disso, seu propósito era expressar a saudade que sentia do período da Ditadura Militar. O fato é que o primeiro governo civil que tivemos depois de vinte anos de ditadura foi uma lástima. A inflação explodiu. O desemprego e a violência urbana, idem.
Quem nunca se viu tomado por um sentimento de nostalgia que atire a primeira pedra.Ah, meu tempo de criança... A gente tem por hábito achar que o passado foi muito melhor do que o presente. Todavia, a recomendação das Escrituras vai da direção oposta:
“Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta.” Eclesiastes 7:10
Cada etapa de nossa peregrinação existencial serve a um propósito maior. Se há, de fato, um tempo áureo, este se encontra no futuro, não no passado. Por isso, somos convocados a cultivar a flor da esperança e não da nostalgia.
O salmo 137 expressa eloquentemente este sentimento:
“Junto aos rios da Babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião. Sobre os salgueiros que há no meio dela, penduramos as nossas harpas. Pois lá aqueles que nos levaram cativos nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos uma das canções de Sião. Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha?” Salmos 137:1-4
O que se poderia esperar de alguém naquelas condições? Como esperar ouvir canções de quem fora tirado à força de sua terra e levado cativo para uma terra estranha? Para os judeus havia chegado a hora de pendurar suas harpas. Não fazia o menor sentido celebrar durante um tempo de cativeiro. Para eles, a felicidade habitava em algum lugar do passado. Eles adorariam se as profecias de que passariam apenas alguns dias na Babilônia fossem verdadeiras. Mas em vez disso, Jeremias os importunava dizendo que sua estada ali abrangeria várias gerações.
Mas o que seriam 70 anos de cativeiro na Babilônia para quem já havia amargado mais de 400 anos de escravidão no Egito? Antes cativo por duas gerações do que escravo por dez.
A verdade é que as pessoas nunca estão satisfeitas com o presente e em vez de se projetarem para o futuro, preferem murmurar e cogitar o quão felizes já foram um dia. Se rebobinassem a fita um pouco mais, veriam que antes de chegarem a Sião, amargaram 40 anos de peregrinação no deserto, e antes disso, 400 anos de serviços forçados no Egito.
A felicidade não está em algum lugar do passado, mas em algum lugar do porvir. E quanto mais retrocedermos ao passado, mais distantes estaremos dela. A ordem é avançar (Fp.3:13). Se não for possível agora, é melhor marcar passo por alguns instantes do que andar para trás. Afinal de contas, Deus não tem prazer nos que retrocedem (Hb. 10:38).
Não importa em que etapa estivermos, sempre haverá quem reclame e expresse saudade do passado. Durante sua marcha pelo deserto, o povo hebreu sentiu falta das cebolas do Egito, esquecendo-se de quão dura havia sido sua estada naquela nação (Nm.11:5). Eles chegam a dizer que tudo o que recebiam no Egito vinha-lhes de graça. E as chibatadas? E ver os filhos trabalhando sem qualquer perspectiva, não conta?
A verdade é que insistimos em nutrir uma visão romântica do passado. O tempo dos nossos avós é que era bom. Havia mais cavalheirismo, dirão as mulheres. E quanto a ser tratada como objeto pelo marido, não conta? Não faz tanto tempo assim que as mulheres nem sequer podiam votar. E se o marido a matasse alegando ser para lavar a sua honra, nenhum juiz o condenaria.
Quantas vezes tenho ouvido meus filhos dizerem que prefeririam ser jovens nos anos 70 ou 80. Posso até concordar que a música era bem melhor do que as que ouço hoje nas rádios. Mas, sinceramente, não trocaria este tempo por nenhum outro da história. Quem tem a minha idade sabe o que é viver na expectativa de que a qualquer momento poderá estourar uma guerra nuclear que dizimará a população mundial. Conhece também a fúria de uma inflação galopante. O mesmo pacote de biscoito que se comprava por um preço pela manhã no supermercado, custaria mais caro depois do meio-dia. Somente os ricos tinham telefone em casa, carro, geladeira e TV colorida. Não tenho saudade disso.
Saímos do Egito da Ditadura Militar, atravessamos o deserto dos primeiros governos civis depois de duas décadas, e agora aspiramos pela terra prometida de uma nação mais justa, menos corrupta, mais solidária, menos preconceituosa. Cada governo deu sua contribuição neste processo, e algumas vezes, também contribuiu para o retrocesso. Porém, devemos lealdado ao futuro e não a uma ideologia, partido ou candidatura em particular.
Saímos do Egito da Ditadura Militar, atravessamos o deserto dos primeiros governos civis depois de duas décadas, e agora aspiramos pela terra prometida de uma nação mais justa, menos corrupta, mais solidária, menos preconceituosa. Cada governo deu sua contribuição neste processo, e algumas vezes, também contribuiu para o retrocesso. Porém, devemos lealdado ao futuro e não a uma ideologia, partido ou candidatura em particular.
A jornada no deserto deveria ter durado quarenta dias. Mas por causa da saudade do Egito, durou quarenta anos. Foi mais fácil tirá-los do Egito do que tirar o Egito deles.
Que Deus nos livre e guarde de uma nova ditadura, seja de esquerda ou de direita, militar ou civil. Enfrentemos o que tivermos que enfrentar, mas não retrocedamos. Se não houver motivos para celebrar, penduremos nossas harpas, adiemos nossa esperança por mais um prazo, mas não nos entreguemos ao desespero, nem retornemos ao Egito.
O exílio na Babilônia equivalia à estadia num hotel cinco estrelas em comparação ao tempo de escravidão egípcia.
Pelo menos, o que nos pedem na Babilônia é que cantemos as canções de Sião. O que nos pediam no Egito era que construíssemos seus palácios ao poder de chibatadas.
Os filhos de Israel chegaram ao Egito como convidados especiais de Faraó, devido ao seu parentesco com José, então governador do país. Na medida em que foram se multiplicando, tornaram-se alvo de preocupação. Um novo Faraó se levantou e, por não ter conhecido a José, não teve qualquer consideração pelos hebreus. Para evitar um levante, tornou-os escravos. Já na Babilônia, os judeus chegaram como exilados. Não eram forçados a nada. Só não podiam voltar à sua terra. Alguns foram levados ao palácio do rei e tratados como príncipes, dentre eles, Daniel. Pelo menos, havia perspectiva de ascensão.
No Egito, eles trabalharam na construção de palácios para os egípcios. Na Babilônia, tinham a oportunidade de construírem suas próprias casas, plantarem seus jardins, casarem seus filhos, etc. (Jer. 29:4-7).
Quanto maiores os direitos e privilégios, maiores também as responsabilidades.
Enquanto estavam no Egito, foram poupados das pragas enviadas por Deus. Somente os egípcios eram atingidos (Êx.10:21-23). Mas na Babilônia, foram instruídos pelo profeta Jeremias a trabalharem pela prosperidade da cidade, pois se ela prosperasse, eles igualmente prosperariam. Trata-se, portanto, de um paradigma diferente do egípcio. Na condição de escravos, Deus os protegia das pragas. Mas na condição de cativos, tudo o que ocorresse à cidade, igualmente os acometeria.
Creio que vivemos neste paradigma nos dias atuais. Deus não nos tem colocado numa redoma. Como disse o escritor de Eclesiastes, “tudo sucede igualmente a todos: o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao mau” (Ecl.9:2). Não é em vão que Pedro se dirige à igreja como aquela que habita na Babilônia (1 Pe.5:13). A ordem, portanto, é que nos insiramos em seu contexto social, cultural, político e econômico, buscando fazer a diferença em vez de ficar nos lamentando de saudade de Sião.
E não adianta recorrermos ao Egito em busca de ajuda contra a Babilônia (Is.30:1-3). Deixemos o Egito onde ele deve ficar, nas páginas do livro de história (Êx.14:13). O que nos espera à frente é uma terra que mana leite e mel. Enquanto atravessamos o deserto, aproveitemos o maná que cai do céu, sem nos esquecer de que, tão logo atravessemos o Jordão, o maná cessará, pois viveremos daquilo que cultivarmos na terra da promessa.
Cada nova etapa tem suas próprias demandas. Não se pode viver em Canaã como se perambulasse ainda pelo deserto. Como não se pode viver em Babilônia como se vivesse na escravidão do Egito. No dizer de Paulo, "quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino; desde que me tornei homem, deixei as coisas de menino" (1 Co. 13:11),
Aproveitando a proximidade do dia das crianças, quero dizer que até tenho saudade da minha infância, mas não do meu tempo de criança. Acho que preferiria ser menino hoje...rs
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Dez dicas para se tornar mais esperto produtivo
RIO — Você pode até achar que a inteligência é algo adquirido. Ou algo que se alcança na juventude e depois não muda. Mas não é bem assim. Aperfeiçoar o cérebro e tornar-se mais produtivo é uma questão de trabalho contínuo e não está diretamente ligado a um comprometimento enorme de tempo e energia, aponta pesquisa feita com empresários e executivos pelo site de perguntas e respostas Quora.
Segundo o estudo, tornar-se mais produtivo e esperto não significa necessariamente voltar para a escola ou trocar toda a biblioteca com livros de temas superprofundos — embora ler seja um ótimo combustível para a mente. A “Times” reuniu dez pequenas atitudes diárias deste levantamento que podem melhorar significativamente a potência mental e, consequentemente, o desempenho profissional.
1. Saiba usar seu tempo on-line
Seus intervalos on-line não precisam ser somente para checar as redes sociais ou publicar fotos diárias do seu animal de estimação. A internet também funciona como uma grande fonte de pesquisa para cursos on-line, vídeos motivadores profissionais e para melhorar o vocabulário. Substitua alguns minutos de postagens irrelevantes com algo mais nutritivo mentalmente.
2. Anote o que você aprende
Não precisa ser nada longo, mas reservar alguns minutos do dia para refletir sobre o que você aprendeu é um bom estímulo ao cérebro. “Escreva 400 palavras por dia sobre coisas que aprendeu”, sugere a professora de ioga Claudia Azula. Mike Xie, pesquisador da Bayside Biosciences, concorda: “Escreva sobre o que você aprendeu”.
3. Faça uma lista das realizações
Grande parte de inteligência vem da confiança e felicidade. Uma dica é parar de anotar tudo o que você não fez e, ao invés disso, fazer uma lista do que você já conseguiu realizar. A ideia da “lista do que foi feito” é recomendada pelo empresário Marc Andreessen, co-fundador da Netscape Communications Corporation.
4. Jogue Jogos de tabuleiro e quebra-cabeças não são apenas diversão, mas também uma ótima maneira de exercitar seu cérebro. Segundo Xie, jogos ajudam a exercitar sua memória de trabalho. Mas o segredo é jogar sem a ajuda de livros ou pessoas.
5. Tenha amigos inteligentes
Pode ser duro com a sua autoestima, mas sair com pessoas mais espertas do que você é uma das maneiras mais rápidas de aprender. “Mantenha uma empresa inteligente. Lembre-se de que o seu QI é a média das cinco pessoas mais próximas com as quais você sai”, afirma Saurabh Shah, gerente de contas do Symphony Teleca. “Cerque-se de pessoas mais inteligentes e seja sempre humilde, disposto a aprender”, orienta o desenvolvedor Manas J. Saloi.
6. Leia muito
Leitura é, definitivamente, essencial. As opiniões variam sobre qual é o material mais indicado para o desenvolvimento da inteligência, se é a leitura diária de assuntos leves ou mais teóricos. Um ponto é fato entre os especialistas e todos concordam: a quantidade é muito importante. Portanto, leia muito.
7. Ensine aos outros
“Se você não consegue explicar de forma simples, você não entende bem o suficiente”, disse Albert Einstein. E a pesquisa concorda que ensinar é uma excelente maneira de memorizar. Certifique-se de que você realmente aprendeu e que a informação está em sua memória tentando ensinar aos outros. Se conseguir, é porque, de fato, aprendeu mesmo.
8. Experimente coisas novas
Você nunca sabe o que vai ser útil antes do tempo. Só precisa experimentar coisas novas e esperar para ver como elas se conectam com o resto de suas experiências mais tarde. Shane Parrish, do blog Farnam Street, conta a história de aula de caligrafia de Steve Jobs. Segundo ele, depois de abandonar a escola, o futuro fundador da Apple, tinha tempo livre e decidiu fazer um curso de caligrafia, o que parecia irrelevante no momento. Mas as habilidades de design que Jobs aprendeu foram mais tarde usadas na criação dos primeiros Macs. “Para ter pontos a serem conectados, você precisa estar disposto a tentar coisas novas, mesmo que elas não pareçam imediatamente úteis ou produtivas”, diz Parrish.
9. Aprenda um novo idioma Você não precisa se tornar rapidamente fluente ou morar em um país estrangeiro para dominar o idioma de sua escolha. É possível fazer isso da sua mesa, através de cursos on-lines, e ainda colher os frutos mentais. “Aprenda uma nova língua. Há um monte de sites gratuitos para isso”, diz Saloi.
10. Tire um tempo ocioso
Ter um tempo livre para pensar e ficar em silêncio é uma estimulação mental, além de ajudar na memória. Pode ser sentada, correndo, enfim, o importante é ter um momento seu para digerir tudo o que tem absorvido.
Fonte: O Globo
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
HOMOSSEXUAIS: Seriam os eunucos da vez?

Por Hermes C. Fernandes
Nenhuma classe era tão menosprezada nos tempos bíblicos do que os eunucos. E a razão disso era muito simples: eles não podiam procriar. Fosse por razões orgânicas (costumavam ser castrados), ou por não sentirem-se atraídos pelo sexo oposto. Por conta disso, sofriam preconceito semelhante ao sofrido por mulheres estéreis. Na concepção judaica, a geração de filhos era a garantia da perpetuação da vida. A prole dava continuidade à saga da família. Na ausência destes, não haveria para quem deixar herança, que consistia não apenas em bens materiais, mas também no nome.
A Lei era dura com relação aos eunucos. Eles nem sequer podiam entrar na congregação do Senhor (Dt.23:1). Neste mesmo capítulo, a Lei também exclui da comunidade israelita os filhos bastardos e os estrangeiros.
Alguns pesquisadores propõem que esta exclusão pretendia apartar da assembleia da cidade os sacerdotes de deuses pagãos, dos quais muitos eram eunucos e bastardos (que por não terem direito a herança, eram entregues para o ofício sacerdotal). Enquanto Israel rejeitava completamente esses indivíduos, outras nações descobriram maneiras de aproveitá-los, envolvendo-os em atividades como o cuidado da rainha e do harém do rei.
A primeira vez que encontramos eunucos em Israel é durante o reinado de Acabe (2 Reis 9:32). Provavelmente cuidavam de Jezabel, mulher extremamente vaidosa e malévola que introduziu vários costumes pagãos em Israel. Vemos também que havia eunucos em Judá nos dias em que Jerusalém caiu nas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia (Jer.29:2). É bem provável que tanto em Israel dos dias de Acabe, quanto em Judá dos dias de Jeremias, os eunucos fossem escravos estrangeiros adotados na corte real.
Quando o rei Ezequias recebeu os embaixadores da Babilônia, mostrando-lhes todos os seus tesouros, Isaías o advertiu dizendo que um dia eles voltariam e levariam seus descendentes para serem eunucos no palácio do rei da Babilônia (Is.39:6-7). Mas Ezequias não percebeu a gravidade e as implicações daquela profecia. Em vez disso, concluiu que se houvesse paz durante o tempo de seu reinado, então, tudo bem. Não importava o que o futuro reservasse aos seus descendentes. Ora, se estes fossem castrados, quem herdaria o trono de Judá?
Quando Ciro II, rei da Pérsia, em 537 a.C., invadiu a Babilônia, ele libertou o povo judeu, permitindo que retornasse a Jerusalém. Muitos dos que retornaram à cidade agora eram eunucos, e de acordo com a lei de Deuteronômio, estavam destituídos de sua cidadania e, com isso, da participação política e religiosa na cidade. Porém, em Isaías (livro escrito bem antes do cativeiro babilônico) há uma revisão desta regra. O mesmo profeta que anuncia a Ezequias o que aconteceria aos seus filhos ao serem levados cativos para a Babilônia, também diz: "O estrangeiro que por sua própria vontade se uniu ao Senhor, não deve dizer: Javé me excluirá de seu povo. Tampouco deve dizer o eunuco: Não sou mais que uma árvore seca. Porque assim disse o Senhor: Os eunucos que observem meus sábados, que escolhem o que me agrada e são fiéis ao meu pacto, concederei a eles ver gravado seu nome dentro do meu templo e de minha cidade; isso é melhor que ter filhos e filhas! Um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Isaías 56:3-6). A partir de Isaías, então, se cria um mecanismo que torna mais flexíveis as leis do Deuteronômio, adaptando-as a uma nova realidade existente na vida social judaica.
Percebemos nitidamente que a graça está por trás desta “adaptação” à realidade. A Lei aponta para um mundo ideal, onde não haja homens incapazes de reproduzir. Porém, a graça lida com as demandas da realidade. A Lei acentua a distância entre o real e o ideal. A graça reverte este fluxo. Em vez de exclusão, inclusão. Em vez de distanciamento, aproximação.
Creio que, como igreja de Cristo, temos muito que aprender com este episódio. O mundo não é o que deveria ser. Há demandas atuais que exigem posicionamento. Devemos apegar-nos às exigências da Lei ou ceder à concessão da graça? Se marcarmos a opção um, então, nossos filhos terão que ser apedrejados em caso de flagrante rebeldia.
Nem mesmo no tempo de Jesus as pessoas sabiam lidar com a questão envolvendo os eunucos. Há conceitos que ainda hoje são difíceis de serem digeridos, principalmente pelos cristãos. Somos inflexíveis como a letra da Lei, esquecendo-nos de que a letra mata, e que somente o Espírito vivifica. Veja como Jesus lidou com o preconceito envolvendo os eunucos de sua época:
“Ele, porém, lhes disse: Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido. Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.” Mateus 19:11-12
Ora, se Jesus estivesse falando de algo simples, aceito pelo senso-comum, não teria dito: “Nem todos podem receber esta palavra...”
Jesus elenca três tipos de eunucos:
Jesus elenca três tipos de eunucos:
• “Eunucos criados pelo homem”. Castrados. Esterilizados intencionalmente. Prática fartamente disseminada na antiguidade. Geralmente castravam-se os filhos de escravos capturados na guerra, para que, ao crescerem, pudessem servir nos haréns dos reis sem oferecer qualquer risco.
• “Eunucos por causa do reino dos céus”. Não castrados. Que optaram pelo celibato para que pudessem servir a Deus no ministério sem distração com esposa e filhos. Paulo, João Batista e o próprio Jesus poderiam ser contados entre esses. Alguns chegaram a se castrar, como no caso de Orígenes, para se livrar da tentação sexual.
• “Eunucos desde o ventre materno”. São os que nasceram desprovidos de atração sexual pelo sexo oposto ou são hermafroditas. Muitos, por conta da pressão social para que tenham vida sexual ativa, acabam desenvolvendo atração por pessoas do mesmo sexo. Tais indivíduos possuem libido, porém esta é direcionada para outras atividades além do sexo. Geralmente, atividades ligadas à estética, às artes, que requerem certo grau de sensibilidade. Embora eu os tenha deixado por último em minha exposição, Jesus os coloca encabeçando a lista dos eunucos.
Em outras palavras, uns são eunucos por imposição social, outros por razões psicológicas ou fisiológicas, e outros por decisão própria, geralmente motivados por idealismo.
O que faremos a esses indivíduos? Que rótulo lhes daremos? Qual será nossa sentença? Tomaremos Deuteronômio ou Isaías como base? E o que faremos com o que Jesus disse acerca deles? Será que estamos entre os que Jesus denunciou como não estando preparados para recebê-los?
O que faremos a esses indivíduos? Que rótulo lhes daremos? Qual será nossa sentença? Tomaremos Deuteronômio ou Isaías como base? E o que faremos com o que Jesus disse acerca deles? Será que estamos entre os que Jesus denunciou como não estando preparados para recebê-los?
Não foi à toa que Filipe foi o discípulo escolhido por Deus para introduzir o Evangelho ao eunuco etíope. Logo no início de sua caminhada cristã, ele testemunhou a maneira como Jesus lidava com os preconceitos humanos. O mesmo Natanael que comentara com Filipe que da região de procedência de Jesus não poderia vir nada que prestasse, ouviu dos lábios do Mestre: Este sim é um verdadeiro israelita! Com este elogio, Jesus interrompeu o ciclo do preconceito. Em vez de rebater, Ele preferiu elogiar. Imagino a cara de Natanael diante de Filipe. O que este não podia supor era que aquela experiência o habilitaria para mais tarde ser tirado do meio das multidões em Samaria para pregar a um eunuco (que ainda por cima era negro!) no caminho de Gaza (At.8:27-39).
Filipe não perde tempo apontando as eventuais falhas morais do eunuco. Em vez disso, fala-lhe de Cristo, tomando como base um trecho do mesmo livro que diz que Deus receberia eunucos e lhes daria um nome eterno. Convencido da disposição divina em recebê-lo como filho, o eunuco diz: “Eis a água, o que me impede de ser batizado?” Se fosse hoje, influenciado por pregadores modernos, talvez Filipe dissesse: Bem, acho que você precisaria tomar um banho de loja primeiro. Trocar essas roupas espalhafatosas por um terno e gravata. Mudar esses trejeitos efeminados. Arrumar uma namorada para comprovar que foi curado. E depois de batizado, gravar um DVD de testemunho para a gente divulgar. Se um eunuco me fizesse a mesma pergunta hoje (o que me impede de ser batizado?), eu responderia: o preconceito. Daí, ele procuraria outro eunuco para evangelizar, conduziria-o a Cristo e abriria uma igreja de eunucos.
É... Jesus tinha razão. Não estávamos preparados à época, e provavelmente, muito menos hoje. Chegamos a Gaza, mas nos recusamos a aproximar-nos da carruagem em movimento. Talvez por amá-los na mesma proporção de que amamos os bandidos... Dizemos amá-los, mas optamos por manter distância. E assim, preferimos a inflexibilidade da Lei ao Espírito da Graça. E é justamente a Lei que nos oferece a chave com a qual trancamos o armário no qual muitos se escondem (alguns dos quais exercem cargos eclesiásticos, usando o púlpito como armário). Somente um ambiente impregnado de graça oferecerá acolhimento e compaixão. Afinal, somos todos humanos, desesperadamente carentes desta graça capaz de fazer-nos renunciar às próprias paixões e concupiscências (Tt.2:11-12). Graça que, igualmente, nos capacita a vencer nossos preconceitos e medos.
Respondendo à pergunta proposta no título deste post. O eunuco da vez é todo aquele que desprezamos, do qual queremos distância. Pelo menos assim, não seremos obrigados a amá-los, já que esta obrigação só diz respeito ao próximo... só que não!
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
A verdadeira história de Cosme e Damião

Por Hermes C. Fernandes
Filhos de uma nobre família de cristãos, os gêmeos árabes Cosme e Damião nasceram por volta do ano 260 d.C. Desde muito jovens manifestaram um enorme talento para a medicina, profissão a qual se dedicaram após estudarem e diplomarem-se na Síria.
Amavam a Cristo com todo o fervor de suas almas, e decidiram dedicar suas vidas ao serviço do amor. Por isso, não cobravam pelas consultas e atendimentos que prestavam, o que lhes rendeu o apelido de "anárgiros", ou seja, “aqueles que são inimigos do dinheiro" ou "que não são comprados por dinheiro". A riqueza que almejavam era fazer de sua arte médica também o seu ministério para o bem de todos. Inspirados no amor de Cristo, usavam a fé aliada aos conhecimentos científicos para atenuar a dor dos enfermos e inválidos. Ao invocarem o nome de Jesus, muitos eram curados, alguns à beira da morte. Até animais eram sarados, pois entendiam que “toda a criação aguarda, com ardente expectativa, pela manifestação da glória de Deus em Seus filhos” (Rm. 8:18:19).
Seu testemunho de amor produziu inúmeras conversões ao evangelho da graça, chamando a atenção das autoridades. Durante a perseguição promovida pelo Imperador romano Diocleciano, por volta do ano 300, Cosme e Damião foram presos, levados a tribunal e acusados de se entregarem à prática de feitiçarias e de usar meios diabólicos para disfarçar as curas que realizavam. Ao serem questionados quanto as suas atividades, eles responderam: "Nós curamos as doenças em nome de Jesus Cristo, pela força do Seu poder".
Diocleciano odiava os cristãos porque eles eram fiéis a Jesus Cristo e se recusavam a adorar ídolos e esculturas consideradas sagradas pelo Império Romano.Eles conheceram os princípios da fé cristã desde sua infância, e por isso recusaram-se a adorar os deuses pagãos, apesar da imposição e das ameaças do império. Diante do governador Lísias, ousaram declarar que aqueles falsos deuses não tinham poder algum sobre eles, e que só adorariam o Deus Único, Criador do Céu e da Terra. Mantiveram a Palavra do testemunho de Cristo, impressionando a todos por seu Amor, fidelidade e entrega a Jesus.
Por não renunciarem aos princípios de Deus, sofreram terríveis torturas. Mas mesmo torturados, jamais negaram a fé. Em 303, o Imperador decretou que fossem condenados à morte na Egéia. Os dois irmãos foram colocados no paredão para que quatro soldados os atravessassem com flechas, mas eles resistiram às pedradas e flechadas. Os militares foram obrigados a recorrer à espada para a decapitação, honra reservada só aos cidadãos romanos. E assim, Cosme e Damião foram martirizados.
Ironicamente, cem anos depois de morrerem por não se render à idolatria, seus restos mortais começaram a ser alvo de veneração, bem como as imagens esculpidas em sua homenagem. Dois séculos após sua morte, por volta do ano 530, o Imperador Justiniano ficou gravemente doente e deu ordens para que se construísse, em Constantinopla, uma grandiosa igreja em honra de Cosme e Damião. A fama dos gêmeos também correu no Ocidente, a partir de Roma, por causa da basílica dedicada a eles, construída a pedido do papa Félix IV, entre 526 e 530. A solenidade de consagração da basílica ocorreu num dia 26 de setembro e assim, Cosme e Damião passaram a ser festejados pela igreja católica nesta data.
Os nomes de Cosme e Damião são pronunciados inúmeras vezes, todos os dias, no mundo inteiro. Até hoje, os gêmeos são cultuados em toda a Europa, especialmente na Itália, França, Espanha e Portugal. Além disso, são venerados como padroeiros dos médicos e farmacêuticos, e por causa da sua simplicidade e inocência também são invocados como protetores das crianças. Por isso, na festa dedicada a eles, é costume distribuir balas e doces para as crianças.
Aqui no Brasil, devido ao sincretismo, a devoção trazida pelos portugueses misturou-se com o culto aos orixás-meninos (Ibejis ou Erês) da tradição africana yorubá. Cosme e Damião, os santos gêmeos, são tão populares quanto Santo Antônio e São João. São amplamente festejados na Bahia e no Rio de Janeiro, onde sua festa ganha a rua e adentra aos barracões de candomblé e terreiros de umbanda, no dia 27 de setembro, quando crianças saem aos bandos, pedindo doces em nome dos santos.
Uma característica marcante na Umbanda e no Candomblé em relação às representações de Cosme e Damião, é que junto aos dois santos católicos aparece uma criancinha vestida igual a eles. Essa criança é chamada de Doúm ou Idowu, que personifica as crianças com idade de até sete anos de idade, sendo considerado o protetor das crianças nessa faixa de idade. Na festa de tradição afro, enquanto as crianças se deliciam com as iguarias oferecidas às entidades, os adultos ficam em volta entoando cânticos aos orixás.
Mesmo não compactuando com a devoção que lhes é prestada, não se deve ignorar ou desprezar o testemunho de Cosme e Damião, muito menos demonizá-los como fazem alguns.
Os médicos gêmeos jamais se deram aos ídolos, tampouco praticaram magia ou ocultismo, embora tenham sido acusados de fazê-lo. Pelo contrário, foram cristãos fiéis até o fim, amando o Senhor sem medida e manifestando Seu amor no serviço ao próximo. Tal testemunho deve continuar a nos inspirar, como tem inspirado a tantas gerações.
P.S.: Uma pergunta recorrente quando o assunto é "Cosme e Damião" é se um cristão pode comer balas e doces oferecidos a eles. Vou deixar que Paulo, o apóstolo dos gentios, nos responda através de uma paráfrase que fiz do texto em que trata do assunto "Comidas sacrificadas aos ídolos":
P.S.: Uma pergunta recorrente quando o assunto é "Cosme e Damião" é se um cristão pode comer balas e doces oferecidos a eles. Vou deixar que Paulo, o apóstolo dos gentios, nos responda através de uma paráfrase que fiz do texto em que trata do assunto "Comidas sacrificadas aos ídolos":
“Ora, no tocante aos doces oferecidos a Cosme e Damião, já temos conhecimento suficiente. Mas devo salientar que o conhecimento incha, enquanto o amor edifica. E, se alguém pensa que já sabe alguma coisa, ainda não sabe como convém saber. O importante é amar a Deus e ser conhecido por ele. Logo, quanto ao comer comidas oferecidas a qualquer entidade, sabemos que o ídolo em si nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só. Ainda que haja alguns que se apresentem como deuses (ou santos), sejam em igrejas ou religiões de quaisquer matizes, inclusive africanas ou orientais, todavia, para nós, há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por intermédio dele. Mas nem todos têm este conhecimento; porque alguns até agora comem coisas consagradas em homenagem aos ídolos, e por terem consciência fraca, ficam contaminados. Ora, comer ou deixar de comer não faz qualquer diferença em nossa relação com Deus. Mas devemos ter cuidado para que essa liberdade não sirva de escândalo para os de mente fraca. Porque, se alguém te flagrar correndo atrás de doces consagrados (visto que tens conhecimento da verdade), não será a consciência do que é fraco induzida a comer também (mas sem ter o mesmo conhecimento)? E assim, pelo teu conhecimento prejudicará o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo. Por isso, se comer tais doces escandalizar a meu irmão, nunca mais os comerei, para que meu irmão não se escandalize.” 1 Coríntios 8:1-13
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