sábado, 11 de abril de 2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
A ÉTICA NO CONTEXTO DO ABSURDO
O livro de Jó é o livro da fé e da ética vividos no contexto do absolutamente absurdo. No livro O Enigma da Graça trato, entre outras coisas, desse problema.
Aqui fica um resumo que espero abra o apetite dos leitores para a leitura do livro que escrevi, mas, sobretudo, aguce o desejo do leitor de ler na Bíblia o Livro de Jó.
A questão ética sobre o bem e o mal apresentada no Livro de Jó nos remete, como ilustração, à observação de Juízes 14: 4, 19. Ali, bem como em tudo o mais que vem na seqüência dos fatos narrados naquele texto — que eram, claramente, estratégias de Deus para criar inimizade entre Sansão e os filisteus a fim de destruí-los—, abre-se também a questão de se e quando os fins justificam os meios.
Ora, no texto de Juízes, os “meios” usados por Deus, todavia, não agradavam às percepções imediatas dos pais e contemporâneos de Sansão. Entretanto, estranhamente, isto “vinha da parte do Senhor”. E chamar isto de “vontade permissiva” de Deus não passa de um ardil semântico e uma tentativa de “explicar” o inescrutável, como se fosse uma “negociação divina” com “outras forças”, incluindo o Diabo e o livre arbítrio humano.
Ora, essa tentativa de “salvar Deus” pela via de uma “vontade permissiva” não passa de um mero vício filosófico de natureza escolástico-reducionista, própria também aos amigos de Jó.
Sim! Não passa de mais uma tentativa de trazer Deus para os grilhões de nossas ignorâncias!
Deus é o único que sabe o quê, num mundo caído, pode ser um “mal” que realiza um “bem”, ao mesmo tempo em que sabe quais são os “bens” que realizam o “mal”.
Somente Deus não precisa de uma ética filosófica para o que faz!
Afinal, Ele só faz o Bem, mesmo que a nossa percepção filosófica imediata seja a de que há um “mal” em curso!
Provavelmente, na eternidade, descubramos que nossos maiores males e dores tenham sido nossas maiores e melhores bênçãos na Terra!
E quando se crê nesse Amor que à tudo criou, perde-se o medo, pois, a Graça cobre o ser!
E o ser coberto pela Graça não se sente nu porque não está mais nu!
Entre os mortais, poucos seres chegaram aonde Jó chegou em sua alma e seu santo atrevimento na presença de Deus.
Entretanto, no Livro de Jó — como de resto em toda a Bíblia — aprendemos que Deus põe o homem tendo que discernir a própria perversidade de seu caminho e a iniqüidade de seus próprios pensamentos, antes de ter que se pré-ocupar com os “caminhos de Deus”, pois, esses, são previamente indisponíveis aos sentidos e às percepções.
E este é o engano: fica-se querendo saber qual é o “caminho de Deus”—que de acordo com Isaías é indisponível aos sentidos humanos—e não se busca discernir o próprio existir humano na Terra, que é fruto, para o mal, de “pensamentos iníquos”, e “caminhos perversos”.
Assim, a recomendação é para que se enxergue a si mesmo, e para que se tente discernir nossas próprias construções de valores e pensamentos, que são os produtores do nosso modo de caminhar—que pode ser bom ou mal.
O homem se manifesta na Terra como o produto de seus próprios pensamentos, sejam eles justos ou iníquos! E isto nada tem a ver com o que ele “recebe” na vida, mas com o modo como ele “responde” ao que “recebe”, incluindo todo “bem” e todo “mal”.
Com relação aos “caminhos de Deus”, o que o próprio Deus diz é muito mais simples, ou seja:
“Buscai-me e vivei!” E mais: “Buscai o bem e não o ma!”
E isto não vem de uma Lista ou de um Código fixo. O resultado que o genuíno encontro com Deus promove é amor àquilo que realiza o bem em nós e no próximo! Portanto, o que se pede a Deus é “vê se há em mim algum caminho mal e guia-me pelo caminho eterno”.
E isto é obra de Deus no coração que o busca e que se abre para deixar seus próprios pensamentos quando percebe que sua construção é iníqua; ou seja, quando não é justa e, por essa razão, promove a perversidade.
Outro nome para essa dinâmica interior é arrependimento, que é mudança de mente, de estrutura de pensamento e de proceder em relação a Deus, a si mesmo e ao próximo!
E a estrada que nos leva à esse “entendimento”—como diz Isaías—pode até mesmo ser um “caminho no mar e uma vereda nas águas tempestuosas”; ou “um caminho no deserto”—e que, ao final, abre “rios no ermo”. Portanto, nos deixando “soltos” na nossa presunção de saber qual é o “caminho de Deus” à priori, forçando-nos, assim, a caminhar em fé, a fim de que—quem sabe—possamos um dia discernir as veredas de Deus à posteriori!
O que passar disso, é problema dos amigos de Jó. Jó, todavia, nada mais tem a ver com isto!
E o que você me diz?
É possível uma outra leitura do drama de Jó?
Caio
Fonte: Site de Caio Fábio
quinta-feira, 9 de abril de 2015
terça-feira, 7 de abril de 2015
Um por todos, mas cada um por si!

Por Hermes C. Fernandes
O coração dos três estava a mil. Da última vez que foram destacados dos demais, algo extraordinário aconteceu.
- O que será que nos espera desta vez? Pergunta um deles.
- Haveria glória maior do que aquela? Pergunta outro.
- Hum... mas Ele andou pedindo ao Pai que lhe restituísse a glória que tinha antes da fundação do mundo... será que se trata disso? Como poderemos fitar nossos olhos? Da outra vez já foi tão difícil... Concluiu Tiago.
- Só não entendi este lance de trazermos espadas... Ele nunca nos pediu para andar armados. Refletiu João.
- Só não entendi este lance de trazermos espadas... Ele nunca nos pediu para andar armados. Refletiu João.
- Bem pensado, João. Mas fale baixinho pra Ele não ouvir... Espero que não demore... estou caindo de sono. Sussurrou Pedro.
- Eu também. Disseram em uníssono Tiago e João, apelidados por Jesus de “filhos do trovão”.
De repente, Jesus interrompe a caminhada, dirige-se a eles e diz em tom dramático:
- Ok rapazes! Chegamos. Estou profundamente deprimido. Não quis dizer aos outros, porque sei que ficariam desapontados. Mais do que nunca, preciso de vocês por perto, me apoiando. Vou um pouco adiante porque preciso ficar só com o meu Pai. Enquanto isso, fiquem aqui de prontidão em oração.
Quando Jesus se afastou um pouco, eles começaram a comentar entre si:
- O que será que Ele está esconde de nós? Nunca vimos Jesus assim...
O tempo foi passando, as vistas começaram a pesar e eles adormeceram.
Tocados por Jesus, acordaram assustados esperando assistir a um espetáculo semelhante ao que assistiram tempos antes. Mas se decepcionaram. Da vez anterior, estarrecidos com o espetáculo da transfiguração, mantiveram os olhos arregalados em todo o tempo. Pedro chegou a sugerir que fossem construídas três tendas para abrigar a Jesus e os dois profetas que lhes apareceram. Mas desta vez, o sono os vencera. Jesus os chama e os repreende por estarem dormindo num momento tão crucial de Sua vida.
- Vocês não podem vigiar e orar comigo pelo menos por uma hora? Será que não percebem a gravidade da situação? Preciso que se mantenham de prontidão.
Aparentemente despertos, sinalizaram como se houvessem entendido o apelo do Mestre. Porém, tão logo Jesus Se afastara novamente, tombaram dormindo, pois pensavam com os seus botões: hoje não haverá espetáculo.
Pelo jeito, esses “três mosqueteiros” às avessas fizeram escola. Dois mil anos passados e ainda somos tão suscetíveis à cultura do espetáculo ao passo que somos tão indiferentes ao sofrimento alheio. Apatia crônica é o diagnóstico de nossa espiritualidade. Almejamos a transfiguração, mas jamais a desfiguração. Queremos Sua divindade, mas não Sua humanidade. Seu poder, jamais Sua fraqueza. Sua sabedoria, não Sua loucura.
Foi necessário que Deus levantasse um D’Artagnan para chamar a atenção da igreja, despertando-a da letargia (Ef.5:14). Paulo, aquele que sequer se considerava digno de ser chamado “apóstolo” (1 Co.15:8-10), destaca a loucura de Deus como mais sábia que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus acima da força humana (1 Co.1:25).
Foi este quarto mosqueteiro que enxergou na cruz um espetáculo muito maior que qualquer transfiguração gloriosa. Mesmo tendo tido a experiência de encontrar Jesus no caminho de Damasco, cuja glória foi capaz de cegá-lo, Paulo determinou em seu coração a ninguém anunciar senão a Cristo, e este crucificado (1 Co.2:2). E não apenas isso: ele se achava privilegiado por participar das aflições de Cristo (Cl.1:24). A cruz de Cristo era a sua própria cruz. Enxergá-lo lá era o mesmo que enxergar-se na mesma cruz (Gl.2:20). Não havia do que se envergonhar! A fraqueza de Deus é Sua maior demonstração de poder. A lógica divina subverte a lógica humana. De sorte que os últimos são os primeiros. Quem quiser ser o maior, deve ser o menor. Foi a partir desta lógica subversiva que Paulo concluiu:
"Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte." 2 Coríntios 12:10
Já ouvi pregadores afirmando que Cristo não deseja ser visto “nos dias da sua carne”, mas em Seu estado de glória. Baseiam-se erroneamente numa passagem em que lemos que “a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo”(2 Co.5:16). A questão aqui não é “Cristo nos dias de Sua carne”, e sim obtermos um conhecimento meramente carnal do mesmo. Pode-se, inclusive, enxergá-lo em Sua glória, porém, de maneira carnal. Portanto, não se trata de Ele estar “em carne” ou “em glória”, e sim, de compreender Sua mensagem de maneira carnal (centrada no meu “eu”) ou espiritual.
Voltemos ao Getsêmane:
Enquanto dormiam, Jesus começou a desfigurar-se. Sua agonia era tão grande que Seus vasos sanguíneos se romperam fazendo com que Seus poros jorrassem sangue.
Se no episódio anterior eles puderam vislumbrar Sua divindade, agora perdiam a oportunidade de enxergá-lo na plenitude de Sua humanidade. Quem antes Se transfigurara ante seus olhos, agora Se desfigurava ante os olhos do Pai.
Nunca Jesus Se sentira tão só. Não havia plateia para aquele espetáculo mórbido. Apenas o Pai o ouvia, porém, Seu pedido não podia ser atendido. O que estava em jogo era o destino de toda a criação. Atendê-lo em Sua súplica seria o mesmo que entregar o universo à sua própria sorte.
- Pai, se for possível, passa de mim este cálice...
Pausa na respiração.
- Mas que seja feita a Tua vontade, não a minha.
O que desfigurou o semblante de Jesus não foram os socos e pontapés recebidos dos guardas do Sinédrio e dos romanos, mas Sua tristeza. Se o coração alegre aformoseia o rosto, o que não faz um coração amargurado?
As primeiras gotas de sangue que pagariam por nossa redenção não foram derramadas no Gólgota, mas no Getsêmane. Não foram resultado das perfurações dos cravos ou da coroa de espinho, ou das chicotadas, mas resultaram da luta hercúlea travada entre Sua carne e Seu Espírito. Conforme Ele mesmo disse aos Seus discípulos numa das vezes em que os repreendera: O espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca.
Sua carne tinha que render-se à vontade do Espírito.
Luta diferente era travada entre os três que acabaram se rendendo ao sono. Até que Jesus os acordou pela terceira vez.
- Agora é tarde! Não há mais o que fazer. Lá vem o traidor...
Pedro levantou-se assustado, notou a aproximação de Judas que se fazia acompanhar por guardas do Sinédrio e pensou consigo:
- Posso me redimir através de um gesto heroico. Ele nem vai lembrar que estive dormindo quando mais precisou de mim. Afinal, Ele não teria nos pedido que trouxéssemos espadas se não tivéssemos que usá-las...
Num rompante, o pescador galileu desembainhou a espada e golpeou um dos soldados com a clara intenção de matá-lo. Por sorte, por estar ainda sonolento, seu reflexo falhou e, em vez de acertar o pescoço, atingiu a orelha do soldado e a decepou.
Com a saliva de Judas ainda no rosto, Jesus agachou-se, tomou a orelha decepada e a colocou no lugar. Este, por sinal, foi Seu último milagre antes de ser crucificado.
Só deu tempo de dizer a Pedro:
- Guarda esta espada, rapaz! Quem com ferro fere, com ferro será ferido!
O que Jesus espera de cada um de nós não são atos heroicos, nem rompantes de valentia, mas tão-somente constância, companheirismo, empatia, engajamento.
Horas depois, o mesmo Pedro O negaria por três vezes no pátio onde aguardava o julgamento de Jesus. Os mesmos que hoje se digladiam por um espaço sob os holofotes da mídia, quando as luzes se apagam são os primeiros a negar tudo quanto afirmam defender.
Não se pode oscilar entre heroísmo e indiferença, valentia e covardia. Há que se buscar uma espiritualidade pautada na constância, que não careça de tocar alarde, de chamar a atenção para si. Aquele tipo de engajamento indiscretamente discreto, em que a mão esquerda ignore o que faça a direita.
Quando falo sobre isso, alguns me contestam afirmando que como luz devemos ser colocados em lugar de destaque a fim de iluminar todo o ambiente. Ok. Mas a luz não chama a atenção para si, e sim para o objeto que pretende iluminar. Assim como o sal realça o sabor da comida. Se salgar demais, estraga. É a isso que chamo “engajamento indiscretamente discreto”.
Não precisamos sair por aí comprando briga com qualquer segmento do qual discordemos. Mantenhamos a espada na bainha. Chega de decepar orelhas! Chega de violar o direito do outro, impondo nossa própria moral. Se tivermos que lutar, que seja pelo bem comum e não pelo nosso próprio bem. E que, em vez de espadas afiadas na lima ideológica, usemos tão-somente a espada do Espírito que é a Palavra de Deus, lembrando que a mesma, por possuir dois gumes, corta tanto para lá quanto para cá.
Fonte: Blog de Hermes C. Fernandes
Fonte: Blog de Hermes C. Fernandes
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