Uma
das marcas de saúde mental de uma pessoa é a sua capacidade de
variedade de temas, interesses, assuntos e uma abertura total para tudo
que seja humano e vida. Portanto, a maior marca de saúde mental é a
alegria de ser, amar, conhecer, e participar da vida, fazendo isso com
amor e bom senso; e sem medo da dor, especialmente da dor do amor.
Uma pessoa fixada num tema só, por mais
que chame aquilo de “meu amor e minha paixão” ou, em certos casos, de
“minha vocação”, ou de “minha obrigação”, se, todavia, se fixa naquilo
como coisa única, e por tal fixação torna-se juiz de quem não tem o
mesmo interesse ou não o tem na mesma intensidade ou, ainda, que
manifeste outros interesses e prioridades, demonstra, por tal atitude de
juízo fundado em sua própria fixação, que se fez vítima de um vício
mental dos mais perigosos e também, por certo, dos mais capazes de
reduzir a mente e a existência de uma pessoa a uma espécie de tara
temático-existencial.
Quando uma pessoa se fixa num único tema
na vida —seja pela via de um trauma, seja pela força de desejos
reprimidos e transformados em “causa de vida”—, por tal fixação,
evidencia o fato de que sua mente está viciada.
A questão é que vícios mentais não são
apenas coisas que permanecem na psique da pessoa. De fato, quando não se
trata de um problema congênito ou hereditário na área mental, em geral o
que acontece é que quando a alma se entrega um certo modo de sentir —
seja em brigas domésticas, seja uma relação viciada na tragédia e no
desamor, seja um poderoso condicionamento de natureza sexual, seja a
fuga de intimidade, seja o ódio, seja a amargura, etc —, o que acontece é
que a presença contínua desse “sentir”, demanda do cérebro certas
liberações químicas que façam “compensação” frente ao stress ou
frente à hiperexcitação ou às oscilações ou a qualquer coisa que
caracterize um modo de sentir intenso. E tais “descargas” químicas de
compensação acabam por se tornarem programas cerebrais que passam a
operar por conta própria; e, agora, invertendo a ordem, ou seja: já não
necessariamente sendo a psique exigindo participação do cérebro, mas o
contrário: o cérebro, agindo de modo condicionado, descarrega o que
antes era um “socorro” para uma situação vivida como experiência
emocional, a qual, agora, passa a ser demandada pelo cérebro, o qual
exige aquele comportamento compatível com a liberação química em curso.
Vícios mentais, portanto, são como uma cobra que se alimenta do próprio rabo!
O problema é: onde está a mente sadia?
Para mim Jesus é o exemplo da mente mais
sadia possível, e, portanto, aberta a tudo e todos; exatamente como
Deus, que manifesta Seus interesses e variedades temáticas na
multiformidade da criação.
Jesus mostra interesse pela variedade da
vida assim como Seu Pai foi variado e extravagante em tudo o que criou.
Sim, porque até as maiores sutilezas da criação estão carregadas de
extravagância divina.
Jesus foi um carpinteiro por profissão, e
nunca chegou a ficar nem de longe velho, tendo morrido jovem.
Entretanto, já menino, no templo, chocava os mestres com suas questões e
interesses acerca de coisas elevadas, porém, no lugar certo e com as
pessoas certas. Nunca estudou, mas lia. Nunca plantou, mas observava o
trabalho do agricultor. Nunca escreveu, mas sabia qual era a presunção
de um copista do sagrado. Nunca namorou, mas sabia como ser carinhoso
com as mulheres. Nunca teve ovelhas, mas sabia, pela observação, como um
verdadeiro pastor se portava. Nunca foi casado, mas sabia como uma dona
de casa ficava feliz quando achava algo precioso que se havia perdido.
Nunca foi pai, nunca foi pródigo, nunca foi um irmão ciumento, mas sabia
como todos os três personagens se sentiam em cada situação. Nunca foi
desonesto, mas sabia como um administrador infiel se sentia quando
apanhado em flagrante. E, assim, Ele demonstra também como um pai de
família deve se comportar se um ladrão se aproximar. Sabe que a pobreza é
crônica na terra; conhece o modo como os políticos dominam sobre os
povos; sabe o que sente uma mulher dando à luz um filho. E não evita a
emoção do choro, da dor, da tristeza, da alegria, do suor de sangue, do
vinho melhor, do medo da cruz, e da oração para ter força para não
morrer fora dela; e vive cada coisa, cada dia, não se deixando
escravizar por nenhum tipo de aflição ou preocupação.
Sim, Jesus tinha a mente mais despreocupada do mundo, ao mesmo tempo em que era a mais responsável da Terra.
Sobretudo, além de ser pela variedade de
Seus interesses, indo de crianças a velhinhas, vê-se Sua saúde mental
na Sua total vitória sobre a ansiedade. Ele faz gestão leve até da hora
da morte. “Não é a hora”, diz Ele. Até o dia em que Ele diz: “Chegou a
Hora”. E Sua despedida de Seus amigos e discípulos não poderia ter sido
mais própria, mais grave e, ao mesmo tempo, mais esperançosa; mais
verdadeira e também protetora das limitações de percepção deles.
Assim, aprendendo com Jesus, busque
interessar sua mente por tudo, sempre apenas retendo o que é bom. E se
você perceber que se irrita com qualquer coisa que não seja o seu
“tema”, preste atenção, pois já é forte sinal de que a sua mente e
cérebro estão viciados ou se viciando. E isso não é brincadeira. É pior
do que qualquer outro vício.
Pense nisso!
Caio