quinta-feira, 17 de julho de 2014

Ossos do ofício: a múmia que carregamos em nossa jornada


Por Hermes C. Fernandes


A expressão “ossos do ofício” é usada comumente quando nos referimos às dificuldades de uma determinada atividade. Por exemplo: por trás de todo glamour que envolve a medicina, o contato diário que o médico tem com portadores de doenças contagiosas pode ser considerado como ossos do ofício.  

A origem desta expressão é inusitada. Diz-se que antigamente utilizava-se pó de tutano para obter o tom alvo das folhas de ofício. O tutano é uma substância encontrada no interior dos ossos e era conhecido por suas propriedades alvejantes. Como esse processo de branqueamento era lento e trabalhoso, convencionou-se chamar de “ossos do ofício” toda e qualquer atividade que oferecesse alguma dificuldade para o exercício pleno de uma profissão.

Toda e qualquer atividade tem seus "ossos". Porém, alguns desses "ossos" são completamente desnecessários. Pesos extras que carregamos nos ombros e que acabam por retardar nossas caminhada.

Quando Moisés retirou o povo do Egito, lembrou-se de que quatro séculos antes um juramento havia sido feito entre José e seus irmãos: seus ossos não poderiam ficar no Egito depois que o Senhor removesse de lá o Seu povo para introduzi-lo na terra que prometera a Abraão, Isaque e Jacó.

Se já é difícil carregar um caixão desde a capela até o túmulo, imagine ter que carregar um sarcófago egípcio bem mais pesado que um caixão por quarenta dias pelo deserto. Este era o tempo estimado da jornada entre o Egito e a Terra Prometida. O que Moisés jamais poderia supor é que, em vez de quarenta dias, a jornada duraria quarenta anos. Quantos se interessariam de ser voluntários para carregar os ossos de José? Por mais que ele tenha sido o instrumento usado por Deus para prover a subsistência daquele povo em seus primórdios, não duvido que não raras vezes alguém tenha sugerido a Moisés que largasse seus restos mortais no meio do caminho. Mas juramento é juramento. Aquela múmia teve que acompanhá-los até que atravessassem o Jordão e pisassem na terra da promessa.

De maneira semelhante, muitos têm carregado um "peso morto" durante sua peregrinação existencial. A caminhada, além de longa, se torna insuportavelmente pesada. Esses "ossos" podem representar um padrão de comportamento, resquício de nosso velho homem, que deveria ter sido sepultado juntamente com ele no batismo, porém, teima em nos assombrar. Podem ser uma palavra que ouvimos lá trás e que ainda repercute em nosso coração, minando nossas energias e sobrecarregando-nos de expectativas fantasiosas e sobrehumanas. Podem ser um paradigma que precisa ser rompido. Um vício que deveria ter sido abandonado. Um hábito que ainda não foi desarraigado. Um ciclo que se retroalimenta. Mesmo que jamais nos tire da rota, no mínimo retardará nossa caminhada.

Diferentemente de José, Miriam e Arão, ambos irmãos de Moisés que tiveram participação importante na retirada dos hebreus do Egito, morreram a caminho de Canaã, e ali mesmo, onde morreram, foram sepultados. Nenhum deles deu trabalho extra para o seu povo como o fez José. O próprio Moisés, apesar de sua liderança inquestionável, morreu também no caminho, faltando pouquíssimo para adentrarem a terra prometida. Moisés nem sequer deu trabalho para que o sepultassem. Deus mesmo o sepultou e seu túmulo jamais foi encontrado. Nenhum mausoléu foi construído em sua memória. Todavia, o legado que deixou à humanidade jamais se perderá. 

Que ninguém tenha que se ocupar de carregar o que restar de nós. Que em vez de um peso a ser carregado pelas próximas gerações, deixemos uma chama que lhes caberá manter acesa até que adentremos à era prometida. Que sejam depositárias de nossos sonhos e não de nossos ossos. Que perpetuem nossas virtudes, jamais nossos vícios, nossa paixão pelo bem comum e não nossos interesses mais vis. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Tem que ser muito homem...


Por Hermes C. Fernandes


Tem que ser muito homem para ter a coragem de expor seus sentimentos sem temer ser ridicularizado. Afinal de contas, homem tem que ser corajoso! Há que se ter mais coragem para dizer o que sente do que para dizer o que pensa, para expor uma emoção do que para expressar uma opinião.

Tem que ser muito homem para admitir sua fragilidade e suas limitações.

Tem que ser muito homem para conter seus desejos e paixões e direcioná-las a uma única mulher.

Tem que ser muito homem para reconhecer seus erros e pedir perdão.

Tem que ser muito homem para jamais trair uma amizade, mesmo que o amigo não lhe seja tão leal.

Tem que ser muito homem para manter sua palavra e cumprir o que prometeu, mesmo que lhe custe um grande prejuízo.

Tem que ser muito homem para correr qualquer risco a fim de fazer feliz a quem se ama.

Tem que ser muito homem para não esmorecer diante das lutas e não se render ao desânimo.

Tem que ser muito homem para manter acesa a chama da esperança mesmo em meio à mais devastadora tempestade.

Tem que ser muito homem para levar a vida com leveza e rir de si mesmo sem perder a ternura.

Tem que ser muito homem para se calar reverentemente diante de um espetáculo da natureza como um pôr-do-sol ou o canto de um passarinho.

Tem que ser muito homem para romper com os grilhões da mesmice e surpreender os que o julgavam previsível.

Tem que ser muito homem para ser firme em suas convicções, mas vulnerável em suas emoções.

Homem que é homem chama para si a responsabilidade, sem jamais deixar de ser menino, franzindo a testa ante as injustiças, mas mantendo nos olhos a pureza da ingenuidade.

A todos os meus amigos, feliz dia do homem.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O "evangelho das vantagens" e as vantagens do Evangelho

 


Por Hermes C. Fernandes

Já foi o tempo em que a mensagem do evangelho expunha as vísceras dos interesses mesquinhos de grupos que se aproveitavam da ignorância alheia para lucrar. Com a aproximação da igreja com os poderes constituídos, o teor subversivo de sua mensagem foi prejudicado, de sorte que as eventuais perseguições sofridas deixaram de ser pelas razões originais. Se antes era perseguida por denunciar as injustiças e proclamar a chegada do reino de Deus, conclamando os homens a se arrependerem de seus maus caminhos, hoje é perseguida pelo flagrante disparate entre a mensagem original de seu fundador e sua prática abominável. A igreja deixou de ser um instrumento usado por Deus para sabotar o sistema para tornar-se numa engrenagem do mesmo.

Diferentemente de apóstolos atuais, presos por esconder dinheiro não declarado em suas bíblias, Paulo e Silas forma encarcerados por haverem libertado uma jovem que, possuída por um espírito demoníaco, seguia-os oferecendo-lhes propaganda gratuita de seu ministério. Eles se recusaram a lucrar em cima de alguém já tão explorado por religiosos inescrupulosos da cidade de Filipos. Que diferença entre eles e aqueles que hoje vivem e se locupletam da desgraça alheia!

O texto sagrado diz que “vendo seus senhores que a esperança do seu lucro estava perdida, prenderam Paulo e Silas, e os levaram à praça, à presença dos magistrados. E, apresentando-os aos magistrados, disseram: Estes homens, sendo judeus, perturbaram a nossa cidade, e nos expõem costumes que não nos é lícito receber nem praticar, visto que somos romanos” (At.16:19-21).

É claro que ninguém em sã consciência admitiria que a razão pela qual exigia a prisão de alguém seria o prejuízo sofrido. Para todos os efeitos, aqueles judeus intrometidos eram perturbadores da ordem pública. Não houve sequer quem se prestasse a testemunhar em favor deles.

De benfeitores aclamados pela população, Paulo e Silas passaram a ser vistos e tratados como inimigos de alta periculosidade. Além dos muitos açoites, foram lançados na prisão, no cárcere interior, o que equivalente ao que hoje chamamos de prisão de segurança máxima, e ainda por cima, prenderam seus pés no tronco. É assim que deve ser tratado quem ouse insurgir-se contra o sistema. Eles não roubaram ninguém. Não atentaram contra vida alguma. Apenas libertaram aquela cuja condição espiritual dava lucros absurdos a seus senhores.

Paulo e Silas tinham todas as razões do mundo para estarem amargurados, murmurando e questionando a Deus pelo castigo injusto que recebiam. Em vez disso, próximo da meia-noite, eles oravam e cantavam hinos a Deus, e, mesmo isolados dos demais, tinham a sua audiência. 

Repentinamente, sobreveio um tão grande terremoto que sacudiu os alicerces do cárcere, provocando a abertura de todas as celas e o rompimento dos grilhões e algemas. Repare nisso: todos os presos ficaram virtualmente soltos. A liberdade estava a poucos passos de atravessar o portão principal da prisão. O aparente livramento não veio só para os que oravam e louvavam, mas para todos.


O carcereiro ficou desesperado, pois sabia que se não contivesse a fuga dos prisioneiros, ele e toda a sua família seriam considerados traidores e consequentemente condenados à morte. A única maneira de evitar isso era tirando a própria vida. Se as autoridades o encontrassem morto, pensariam que os amotinados o teriam assassinado e isso certamente pouparia sua família da execução.

Na mentalidade predominante no mundo, uns ganham, outros perdem. A vitória de alguns representa o fracasso de outros. Mas na mentalidade do reino de Deus, ninguém precisa perder para outro ganhar. O bem comum está sempre acima do bem particular. Paulo e Silas podiam aproveitar o momento para fugir, sem se importarem com o que aconteceria àquela família.

Como que num lampejo, Paulo finalmente entendeu a razão pela qual Deus permitira tal injustiça sofrida por ele e seu colega. Havia ali um homem a quem Deus desejava alcançar.

No afã de impedir que ele cometesse suicídio, Paulo clamou com grande voz, dizendo: Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos” (At.16:28).

Quem poderia imaginar que Paulo e Silas, presos considerados de alta periculosidade, fossem capazes de conter aquela fuga? O que conferiu-lhe tal credibilidade junto aos presos? Por que o obedeceram, abrindo mão da liberdade?

Há quem veja o terremoto como o grande milagre descrito nesta passagem. Sinceramente, para mim aquele terremoto não passou de um fenômeno natural como outro qualquer. Terremotos eram frequentes naquela região. O verdadeiro milagre foi Paulo impedir que os presos fugissem.

Aqueles homens, muitos dos quais eram presos políticos, acusados de incitar a população contra o império, ouviram as orações e canções entoadas por Paulo e Silas. Duvido muito que fossem canções como as cantadas hoje em dia em muitos círculos cristãos, que incitam sentimentos rancorosos e lustram o ego humano em vez de simplesmente expressar confiança no amor de Deus.

Uma coisa é alguém de fora vir para conter um motim dentro de um cárcere. Outra coisa totalmente diferente é o motim ser contido por um dos presos, e, justamente, por aquele que não deveria estar ali.

O terremoto não veio para libertá-los da prisão, como muitos pregadores vociferam em seus púlpitos. Se assim fosse, então, concluímos que Paulo e Silas não compreenderam a mensagem.

O que vale mais, a liberdade de centenas de homens ou a preservação da vida de um chefe de família?

A espada já estava na altura da garganta. A decisão estava tomada. Porém, Paulo não permitiu que aquele homem consumasse seu intento suicida.

Assustado, prostra-se diante de Paulo e Silas e pergunta: “Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?” (v.30). Que resposta os pregadores modernos dariam? Quantas campanhas ele teria que fazer? Em quantos “encontros” teria que ir? Quanto custaria?

Somente a falta de escrúpulos faria com que alguém se aproveitasse do momento de desespero do seu semelhante para obter algum lucro. Aquela pergunta feita às pessoas erradas custar-lhe-ia muito caro.
Paulo é curto e elegante:Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (v.31).

Só isso? Não há sacrifícios financeiros a serem feitos? Sem barganhas? Sem lugares sagrados para frequentar? Basta crer? Tem certeza disso? Então, por que a gente complica? Por que vergonhosamente burocratizamos o reino de Deus?

Já ouvi de alguns que se Jesus é o caminho, alguns ministérios são o pedágio. Triste constatação. Se Paulo e Silas dessem qualquer outra resposta, eles se assemelhariam aos que lucravam em cima daquela jovem a quem haviam libertado.

A salvação daquela família não se daria por tabela. Não é o fato de alguém ser salvo que garantirá que toda a sua família igualmente o seja. Nem será uma “palavra profética” que vai mudar isso. O texto diz que o carcereiro os tirou para fora, dando-lhes a oportunidade para que lhe pregassem “a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa” (v.32). E tem gente achando que vai salvar sua família através de um voto mirabolante, enviando os nomes de seus familiares a um monte qualquer. Parafraseando Paulo, como serão salvos se não crerem, e como crerão se não houver quem lhes pregue o evangelho?


Que garantia há de que nossos familiares aceitarão a mensagem? Haveria alguma maneira de contribuirmos para isso?


Ora, um homem que trabalhasse naquele ofício costumava ser duro, bruto, sem muita afetuosidade. Provavelmente, sua mulher e filhos já estavam acostumados ao seu modo de ser. Lidar com presos todos os dias o deixara assim. Tão logo recebera a palavra, algo mudou em seu ser. Creio que foi isso que chamou a atenção de sua família, fazendo com que se abrisse igualmente à Palavra.

Leia atentamente o que diz o texto:


“E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus. E, levando-os à sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa” (vv.33-34).


A família ficou impressionada. A mulher não o reconheceu. Como um homem considerado cruel por muitos agora se dispunha a cuidar de feridas que ele mesmo abrira? E não somente isso: ele também fez questão de lhes pôr a mesa, atribuição geralmente dada às mulheres.

É verdade que quando somos regenerados, tornamo-nos novas criaturas, de sorte que as coisas velhas já passaram. Todavia, devemos cuidar para que isso não seja entendido de maneira equivocada. Mesmo convertido a Cristo, as feridas abertas por ele ainda sagravam e careciam de ser cuidadas. Não podemos, simplesmente, ignorar nossa vida pregressa como se não houvesse nada que devêssemos fazer para consertar alguns erros que ficaram para trás. O que levou Jesus a declarar que a salvação havia chegado à casa de Zaqueu foi sua determinação inusitada de devolver o que até então havia extorquido de seus concidadãos. Tal atitude evidenciou sua conversão.

O fato de Deus nos haver perdoado os pecados cometidos lá trás, não significa que não haja nada que devamos fazer para atenuar o sofrimento que causamos a outros. Ver o pai cuidar daquelas feridas e ainda servir à mesa tocou profundamente no coração de toda a família. Nascia ali uma das mais poderosas igrejas iniciadas por Paulo. Devemos à sua existência a epístola aos Filipenses, que nos brinda com o texto que relata gloriosamente a kenósis de Cristo, isto é, Seu esvaziamento e exaltação (Fp.2).

Hoje as pessoas aceitam a mensagem do evangelho por causa das vantagens que lhes são prometidas por pregadores famigerados. Adesões ocorrem no lugar de conversões autênticas. As pessoas seguem suas vidas intactas, desejando serem servidas sem jamais precisarem servir.

Quando o dia amanheceu, os mesmos magistrados que haviam ordenado a sua prisão mandaram revogá-la. O carcereiro foi quem deu a notícia: - Agora vocês podem ir em paz!

Ora, se houvessem fugido quando ocorreu o terremoto, eles teriam sido privados do alvará de soltura e passariam o resto da vida como foragidos da justiça.

Surpreendentemente, Paulo não aceitou a oferta feita pelos magistrados. Sentindo-se insultado, Paulo replica: “Açoitaram-nos publicamente e, sem sermos condenados, sendo homens romanos, nos lançaram na prisão, e agora encobertamente nos lançam fora? Não será assim; mas venham eles mesmos e tirem-nos para fora” (v.37).

Quanta ousadia! Pode parecer que Paulo estivesse sendo motivado por um tipo de soberba. Porém, o que ele queria era preservar sua reputação a fim de que a credibilidade de sua mensagem não fosse danificada. Os magistrados tiveram que vir pessoalmente e implorar que Paulo e Silas aceitassem a oferta de liberdade.


O maior prejuízo sofrido pela igreja moderna não é a perda da relevância, mas da credibilidade. E para resgatá-la, não podemos negociar com os poderes deste mundo. Que sejamos achados fiéis, dignos do evangelho de que somos portadores. 


quarta-feira, 2 de julho de 2014

COMO ME SEDUZISTE?

 



Por que te amo assim..., Jesus?

Só sei que foi por causa do teu amor por mim!

Agora, tudo me fale de Ti.

Sim, porque criastes todas as coisas, todas as coisas agora só me falam de Ti.

E porque sei que me fizestes, hoje tudo em mim só me lembra de Ti, Senhor.

Teu amor, Teu terror, Teu calor, Teu temor, Teu perdão, Teu trovão, Teu refugio, Tua ira, Teu galardão, Tua sentença, Teu poder, Tua singeleza, Teu braço, Tua brisa — sim, tudo se tornou uma só coisa em mim!

Tu és!
Eu sou em Ti!
Tu-eu-eu-Tu!

Nele, nós,
Caio

terça-feira, 1 de julho de 2014

AGENCIA DE PUBLICIDADE DE MILAGRES

 


Que alguns grupos religiosos “evangélicos” se utilizam de equipes formadas por publicitários e marketeiros profissionais, que trabalham produzindo as “campanhas” de tais “igrejas”, eu já sei há 20 anos.

São Campanhas do Estilingue de Davi, da trombeta de Josué, da lã de Gideão, do altar de Abraão, da Arca da Aliança, do Cordeiro do êxodo, etc.

Mas o que é novo para mim foi saber ontem por um amigo muito bem informado, que o responsável pela agencia que cuida de criar os testemunhos de prosperidade de um desses grupos (o maior deles), o procurou propondo uma conversão dele ao grupo, a fim de impressionar o povo (ele é pessoa bem conhecida).

Foi em tal conversa que o dono da agencia disse a ele como faziam com os testemunhos de prosperidade empresarial.

Disse o homem que pegam o negócio falido de uma pessoa, injetam dinheiro, e, depois, compram um novo ponto do negócio, e botam a pessoa “no ar”, na televisão, dizendo como prosperou depois da “campanha de prosperidade”.

Disso eu sabia de ouvir dizer. Mas foi a primeira vez que alguém me diz que foi abordado pela agencia de propaganda a fim de ser um dos “testemunhos”.

Esse meu amigo estava falido e, por tal razão, foi abordado. Criam que ele não resistiria a oferta de virar um menino propaganda da “igreja”, dizendo como prosperara depois de ter entrado para aquele lugar de milagres.

O dono da agencia é um judeu. Meu amigo disse a ele que não faria isso contra Deus. Mas o dono da agencia disse: “Que é isso? Deus não está nisso. É só negocio, só business. Eu até sou judeu. Mas faço esse trabalho pros evangélicos. Só negócio. Entra. Vamos lá. Vai ser bom pra você”.

Meu amigo disse que foram dias de insistência.

Desse material são feitos os milagres de tais grupos.

Fernandinho Beira-mar é um fedelho perto desses bandidos da religião do engano, do dinheiro e da prosperidade.

É a mágica do estelionato. É a bruxaria do engano. É a feitiçaria da imagem. É maldição da criação fantasiosa. É a operação do diabo. É transformar pedra em pão artificial. É a gargalhada do inferno, vendo as pessoas darem glória a Deus pela mentira.

Deus não tem glória em nenhuma mentira que sendo dita em nome de Deus, faz as pessoas dizerem: “Louvado seja Deus!”

Deus só tem glória na verdade!

E assim vão de engano em engano, até que vejam que foram também enganados pelo inferno.


Caio

Entre aspas - Um Poema

 

 
Para quê tantas asneiras
Se inventaram as “aspas”?
Uns comem pelas beiras
Outros se fartam de raspas
Desqualificam o oponente
Expondo-o ao ridículo
Vale é o escândalo recente
Não importa o seu currículo
Quem nos deu procuração
Pra pensar pelos demais?
Se quiser dar sua opinião
Tem que provar ser capaz
Basta dizer o que pensa
E as pedras lhe atingirão
Porém sua recompensa
Vai além de se ter razão
Se deles recebe sentença
de Deus vem seu galardão
Ser autêntico tem um preço
Quem se dispõe a pagar?
Se agrado ou se aborreço
Ou se vão me difamar
No meu rumo permaneço
Sei aonde vou chegar
Não me tratem pelo título
Entre aspas ou colchetes
Isso é só mais um capítulo
Falem grosso ou em falsetes
Só me nego andar em círculo
Iludido entre os verbetes
Por Hermes C. Fernandes em 26/06/2014


segunda-feira, 30 de junho de 2014

A gente não é feito pra acabar!

 


Por Hermes C. Fernandes
Durante estes dias de Copa do Mundo, o Brasil se transformou numa enorme caldeira cultural. Gente de todas as línguas e matizes culturais convivendo pacificamente nos mesmos espaços urbanos. Os mais curiosos se perguntarão: de onde vem tal variedade cultural? Ou ainda: de onde procede o fenômeno cultural? 
A vocação primordial do homem é a de cultivar a terra. O texto sagrado diz que o Criador tomou o homem a quem criara à sua imagem e semelhança e o pôs no Jardim do Éden, incumbindo-lhe de guardá-lo e cultivá-lo (Gênesis 2:15). Surgia aí a cultura. A própria etimologia da palavra encerra este significado. “Cultura”do latim colere, que significa cultivar. Portanto, a cultura surge a partir da dinâmica da interação do homem com o meio em que está inserido. A cultura, portanto, abrange toda a produção de conhecimento, crenças, arte, moral, lei, costumes e todos os hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade, e geralmente deixados para as gerações posteriores.
 A agricultura foi o ponto de partida desta interação entre o homem e o ambiente. Todavia, ela se intensificou à medida que o homem foi descobrindo novas demandas. Por exemplo, tomando a referência bíblica como base, quando se percebeu nu, o homem coseu folhas de parreira, uma das árvores que ele cultivava no jardim. Deus, entretanto, preparou-lhe uma vestimenta de pele de animal. Surgia, então, a espiritualidade, parte essencial da cultura humana.  A espiritualidade surge a partir da reflexão acerca da finitude da vida. Os antropólogos identificam a emergência da espiritualidade na raça humana com o tratamento dispensado aos mortos. Desde que começou a vislumbrar a possibilidade da vida após a morte, o homem passou a sepultar seus mortos de maneira reverente. Em vez de abandoná-los para serem devorados pelas feras, passou a enterrá-los em covas, acompanhado de flores e objetos de uso pessoal. A cultura, então, toma um rumo inusitado, pois não se resume à interação com o meio, mas também à resposta que se dá à existência, revestindo-a de sentido e significado. A vida deixa de ser vista como um acidente e passa a ser encarada como cheia de propósito. As folhas de parreira são substituídas por vestes feitas da pele de um animal sacrificado. Era a resposta do homem à inexorável sentença da morte: a gente não foi feito para acabar!
Duas cosmovisões começam a se digladiar entre si. Uma tem como arquétipo a figura de Caim, o primogênito de Adão. A outra, a figura de Abel, seu segundo filho. Caim, o agricultor, representa a fase em que a humanidade deu seus primeiros passos na composição de sua cultura. O que importava era a sobrevivência num mundo hostil, cheio de cardos e espinhos. Diferentemente da Adão, seu pai, que representa o estágio em que o homem vivia da coleta daquilo que encontrava. Abel, seu irmão, era pastor de ovelhas, e representa o desenvolvimento da prática pecuária. Neste estágio, o homem deixa de se preocupar exclusivamente com sua sobrevivência e passa a considerar assuntos relativos à transcendência. A interação entre as duas cosmovisões nem sempre foi amistosa. Todos  conhecemos o desfecho desta história. Caim mata Abel. Foragido, cabe a ele a construção da primeira cidade. Portanto, a civilização nasce daí, do conflito, da fuga e do desejo de estabelecer-se. Caim representa a humanidade que se assenta nos lugares férteis, geralmente próximos de grandes rios e ali edifica seus centros urbanos. Abel representa a humanidade em trânsito, nômade, hebreia, em busca do horizonte. Se esta aspiração houvesse terminado com Abel, talvez ainda estivéssemos às margens do Eufrates. Porém, Abel sai de cena e dá lugar a Sete, dando prosseguimento à saga daqueles que não têm cidade permanente, mas buscam a que se insinua no lugar onde nasce o sol, a cidade do futuro (Hb.13:14).
Desde então, a humanidade tem estado dividida entre dois grupos. Os que almejam a manutenção das coisas exatamente como são. E os que acenam para o futuro, desejando-o, não como repetição de uma história cíclica, mas como algo novo e inusitado. O primeiro grupo tende a produzir uma cultura estática, que valoriza, sobretudo, as tradições, sem ao menos contestá-las e colocá-las à prova. O segundo grupo tende a produzir uma cultura dinâmica, condenada a reformular-se constantemente. Para uns, a era áurea se encontra no passado. Para outros, o melhor ainda está por vir. Uns sonham voltar para o paraíso. Outros sonham com a Nova Jerusalém, arquétipo da civilização do reino de Deus. 
Para os que seguem o que chamo de paradigma caímico, a cultura se resume no que se produz para o próprio consumo. Para estes, a gente é feito pra acabar. Esta sentença nos persegue por toda a existência. Portanto, aproveitemos ao máximo o tempo de que dispomos. Mas para os que seguem o paradigma abélico, a cultura é o rastro que se deixa para os que virão depois. É a pista de que passamos por aqui. É a sinalização da estrada aberta e pavimentada pelos que nos antecederam. A cultura é, por assim dizer, o que restou de nós. Nossas paixões. Nossos sonhos. Nossos amores. Nossos temores. Tudo fica espalhado pela estrada na qual transitamos durante nossa peregrinação existencial, indicando aos que virão qual o melhor caminho a seguir e qual deve ser igualmente evitado.