sábado, 2 de fevereiro de 2013



Por Hermes C. Fernandes
Basta que aconteça uma tragédia como a que abateu sobre a cidade de Santa Maria no último final de semana, para que alguns "irmãos" emitam suas opiniões carregadas de religiosidade preconceituosa. Alguns até aproveitam para reforçar seu proselitismo barato e desprovido de compaixão. 

Uns creditam o desatre ao diabo, conferindo-lhe um poder que beira à soberania, esquecendo-se que sua atuação é restringida pelo próprio Deus. Outros, em seu zelo religioso, alegam peremptoriamente que o próprio Deus esteja por trás disso, trazendo juízo a uma geração hedonista, entregue aos prazeres desenfreados da carne. 

Ora, não nos atrevamos a colocar tal tragédia na conta da soberania de Deus. Não o confundamos com o "deus da carnificina", que tem prazer na morte e na destruição. 

Não seria este o caso de nos calarmos reverentemente ante a dor incomensurável das famílias enlutadas? Não seria o caso de abandonarmos nossa presunção de ter resposta pra tudo e simplesmente oferecer nossos ombros àqueles que necessitam chorar? Enquanto crentes acusam, artistas seculares como Lady Gaga se apressam a prestar solidariedade, divulgando imagens em que estaria orando pelas vítimas. 

Lamentavelmente, preferimos agir como os amigos de Jó, acusando, vociferando, arrogando-nos o papel de advogados de Deus, como se Ele nos houvesse contratado para isso. 

É diante da tragédia que percebemos o quão superficiais têm sido nossas mensagens, nossas canções, nossos estudos bíblicos, pois não nos preparam para encarar a vida como ela é, com suas demandas, suas dores, suas inquietações. Tornamo-nos numa geração mimada pela teologia da prosperidade e por uma hinologia triunfalista. Simplesmente, não estamos preparados. Nossa teologia sucumbe diante da catástrofe. Nossos púlpitos são por demais rasos. Nossos sermões estão recheados de clichês, respostas prontas, sem coração, sem amor. 

Como encontrar sentido numa tragédia como esta ocorrida na boate Kiss em Santa Maria? Os mortos já ultrapassam a casa dos 240 no que está sendo considerado a segunda maior catástrofe desta natureza na história do Brasil.

Alguns crêem que foi o juízo de Deus sobre jovens ímpios que se reuniam para celebrar a promiscuidade e a licensiosidade. Se houvesse ali algum crente, no mínimo, era um desviado que preferiu o mundo às coisas de Deus. Se estivessem na igreja, ou numa vigília, ou num show gospel, teriam sido poupados (como se coisas assim jamais ocorressem num território tido como sagrado).

Repetindo o que dissemos noutra ocasião: O mundo não será impactado por uma igreja triunfalista, formada de crentes insensíveis, mimados e pirracentos, que só sabem contar vantagens como se fossem testemunhos. O mundo será transtornado por uma igreja vulnerável, que desça de seu pedestal em direção à miséria, ao desespero, e às mais profundas carências humanas. Uma igreja que se identifique e se compadeça, em vez de buscar desculpas teológicas para sua letargia e frigidez. Uma igreja que não se preocupe em teodicéias mirabulantes para tentar explicar a razão das tragédias frente à realidade de um Deus amoroso e todo-poderoso. Em vez disso, se mete em meio à tragédia para revelar, num gesto, a face neglicenciada do Deus todo-amoroso. Deus não carece de advogados, mas está recrutando embaixadores do Seu amor.



Um comentário:

Madalena Schutze disse...

Oi Paulo li teu texto e concordo contigo, se esses jovens estivessem em uma igreja nada disso teria acontecido.
A exemplo do que fez no passado, Jesus gostaria de andar pelos caminhos e vilas, pelos hospitais e clínicas e não deixar nenhum doente. Ele gostaria de mandar para casa cada paciente perfeitamente curado, impedir que os carros colidissem, evitar que os aviões caíssem, que os acidentes ocorressem e que os terremotos, as inundações e os incêndios não acontecessem.
Meus filhos quando jovens carregava para a igreja, mesmo contra a vontade deles, mas as vezes vinha a rebeldia e iam a boates, festas, mas eu ficava orando até eles voltarem.
Abraços
Madalena